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Cartas Perdidas

Book By: InesGTF
Literary fiction


Conta a história de uma rapariga, Clara, que desde os seus seis anos de idade tem uns pesadelos estranhos, todos os anos, dia 15 de Setembro, que a preocupam a ela e à família. Um dia decide escrevê-los como em cartas, como se fosse para as enviar a um ser imaginário a contar aquilo que vê nos seus pesadelos.
Eventualmente , o seu "interlocutor" ganha forma e...


Submitted:Dec 14, 2010    Reads: 11    Comments: 0    Likes: 0   


Acordei pouco depois das sete da manhã, sobressaltada. Tinha tido um pesadelo ou, talvez, apenas um daqueles sonhos, na sua maioria bizarros, diria até macabros, que nos fazem pensar neles durante horas a fio, quem sabe, o dia todo.´ Passados apenas alguns segundos, já eu estava sentada na cama com a minha mãe a olhar para mim com aquela expressão que eu tão bem conhecia de "acontecer outra vez", de preocupação.
- Tiveste mais um pesadelo, querida?
- Sim. - Respondi limpando as gotas de suor que me iam escorrendo pela testa.
- Lembras-te daquilo que sonhaste? - Questionou aproximando-se para tentar acalmar-me.
- Não, não me lembro de nada. Apenas se mantém aquela estranha sensação de continuidade. Persiste aquela ideia de que tenho estes sonhos, por esta ordem, por alguma razão, ainda que não saiba qual. Quando acabará isto?
- Não sei, querida, não sei. - Respondeu abraçando-me calorosamente. - Tenta voltar a adormecer. São sete e um quarto da manhã e é sábado.
Não consegui voltar a adormecer. A sensação de este pesadelo que acabara de ter não estar desligado de todos os outros que tive anteriormente apoderou-se de mim. Tentei a todo o custo recordar-me do que vira, mentalmente, enquanto sonhava, mas foi em vão. Persistia o esquecimento e a falta de vontade de dormir. Todos os anos isto acontecia, uma vez por ano, sempre no mesmo dia: 15 de Setembro.
Começou há catorze anos, no meu primeiro dia de aulas. Lembro-me que durante cerca de cinco minutos virei-me e revirei-me na cama, gemi, tremi e por fim levantei-me dando um salto grande o suficiente para me sentar e um grito alto o suficiente para acordar os meus pais e o meu irmão. Não me recordo de nada específico no que diz respeito ao pesadelo em si, apenas me lembro de ser suficientemente assustador para me impedir de dormir de luz apagada durante pelo menos uma semana.
Na altura não associei o pesadelo a nada. A idade far-me-ia considerar a hipótese de ser apenas nervosismo de primeiro dia de aulas não se desse o caso desta situação se repetir todos os anos.
O mais recente pesadelo não fora tão assustador como os anteriores. Pelo menos não tão explicitamente. Porque digo isto? A única imagem de que me recordo quando penso nele é de uma cara. Uma cara de um rapaz pálido, de olhos claros e cabelo de um loiro tão claro que se aproxima do branco. Essa imagem transmitia-me alguma serenidade, no entanto, ao mesmo tempo, algo me assustava.
À medida que o tempo foi passando a preocupação dos meus pais foi aumentando. Ao constatarem que todos os anos tinha estes sonhos que tanto me atormentavam (e também a eles obviamente) decidiram que estava na altura de agir.
Recordo-me deles a entrarem no meu quarto, numa soalheira manhã de sábado, após eu ter tido mais um dos pesadelos. Tinha dez anos na altura o que me leva a crer (segundo o que permite a matemática) que seria o quarto. Aproximaram-se de mim e limparam-me o suor como sempre faziam e após alguns minutos a minha mãe, que esteve a maior parte do tempo com um ar extremamente pensativo, falou:
- Clara ?
- Sim mãe? - Questionei eu entre soluços e lágrimas.
- Eu e o teu pai estamos muito preocupados contigo. Estes pesadelos que tens, sempre neste dia, eles … Eles não são normais. - Afirmou ela segurando a minha mão e olhando para mim daquela forma tão familiar de preocupação.
- Eu sei. Eu não escolho tê-los. - Justifiquei-me não compreendendo onde queria chegar.
- Quero que amanhã vás falar com uma senhora.
- É mais uma das tuas amigas que vem ter comigo? Daquelas com quem falas de sapatos e que falam comigo como se estivessem a falar para um bebé e continuam a apertar-me as bochechas mesmo sabendo que eu não gosto? - Ripostei.
- Não, não te preocupes. É outra pessoa. Esta ainda não conheces. - Respondeu às gargalhadas devido à minha indignação face ao comportamento das suas amigas. - Prometo que não te apertará as bochechas.
No dia seguinte, depois de me terem ido buscar à escola, fui visitar a "amiga da minha mãe", uma psicóloga. A conversa não podia ter sido mais pacífica, ainda assim, desagradou-me o facto de ter que responder a tantas perguntas relacionadas com os pesadelos visto que mal me lembrava deles.
- Nesses teus sonhos maus, que imagens vês? - Inquiriu docemente a psicóloga.
- Não me lembro.
- De nada mesmo? - Insistiu.
- Não, quer dizer, mais ou menos. Lembro-me que num deles vi uma escola.
- A tua escola?
- Não, outra escola.
- E no teu sonho, tu estudavas nessa escola? - Continuava a psicóloga numa tentativa falhada de me fazer falar.
- Acho que sim. Não me recordo. Só me lembro de ver um grupo de meninos, se calhar meus amigos, e aconteciam-lhes coisas muito más.
- Como assim?
- Coisas mesmo muito más.
- Não me queres explicar que coisas eram essas?
- Não. - Afirmei convicta.
- Tens a certeza?
- Sim.
- Não tem importância. Lá chegaremos depois.
Nunca "lá" chegámos. Depois desta primeira sessão, outras existiram (cerca de cinco ou seis) mas eu não disse nada para além do que já tinha dito. Na verdade, não tinha mais nada para dizer. Aquilo era tudo o que tinha conseguido reter até ao momento. Aquelas imagens revolviam o meu pensamento ainda imaturo e infantil e inúmeras questões se colocavam na minha mente: Quem eram as pessoas que via? Porque as via? Porque tenho estes pesadelos?
Para além dos pesadelos, existe um segundo eterno problema na minha vida: o meu irmão, Ângelo.
Ele é seis anos mais velho que eu, uma diferença considerável sobretudo quando somos pequenos. Recordo-me que quando tinha dois anos, tinha ele oito, adorava tirar-me e esconder-me os brinquedos. Eu ia a correr queixar-me à minha mãe pelas coisas que ele me fazia, mas ela não dava importância.
Coisas de miúdos - Pensavam os nossos pais.
O que é facto é que essas "coisas de miúdos" se mantiveram por anos e anos e isso fez com que a nossa relação não fosse das melhores, como ainda hoje é visível.




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