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Un coracao de ouro

Short story By: InesGTF
Literary fiction



É a história de uma aventura com suspense e muitos segredos por desvendar e por compreender que espero que consiga cativar quem quer que a leia.


Submitted:Dec 14, 2010    Reads: 19    Comments: 0    Likes: 0   


Primeira Parte - A História de encantar
Vivi sempre no mesmo sítio desde o dia em que nasci e, ao contrário de grande parte das pessoas, nunca senti falta de mudança.
Aquela casa tinha algo de especial que fazia com que todos os dias representassem uma nova descoberta, por isso, nunca me aborrecia. Era um casarão enorme, uma espécie de palacete como os que existiam no século XIX, afastado da confusão da cidade e inserido na tranquilidade campestre. Os meus pais diziam que o que tornava aquele sítio tão especial era o facto de existir, escondido algures, um tesouro.
Alguns dos habitantes da cidade demonstravam uma certa curiosidade pelo tesouro, no entanto, eu nunca acreditei na sua existência. Os meus pais nunca me disseram onde ele estava escondido e, quando perguntava, a resposta era sempre a mesma: "Saberás quando tiveres dezoito anos, querida.".
Tive uma infância muito feliz. Não tinha irmãos e, ao contrário da maioria das crianças, nunca os quis. Não sentia falta de nada. Como poderia sentir se vivia numa casa com tamanho suficiente para existirem salas em que nunca entrei e ainda com um jardim proporcional ao tamanho da habitação?
Era lá, no jardim, que passava a maior parte dos meus dias. Ora no baloiço que o meu pai construíra e que a minha mãe dizia ser demasiado perigoso para mim, ora simplesmente a correr pela relva, como todas as crianças gostam, e a colher flores.
Como seria de esperar, a correria pelos canteiros e a colheita de flores eram actividades que deixavam o nosso jardineiro de cabelos em pé. No entanto ele compreendia já que eu era apenas uma criança de cinco anos.
Apesar de vivermos num local praticamente abandonado, perto da nossa casa existia uma outra que, embora fosse mais recente, tinha sido menos poupada pelo tempo. Lá vivia a D. Aurora, uma senhora já de alguma idade (não sei precisar quantos anos teria) a quem a minha mãe pedia regularmente para tomar conta de mim. Era uma senhora muito simpática, com muito jeito para crianças e eu adorava estar com ela.
Para além da casa onde passávamos a maior parte do ano, tínhamos uma casa de férias. Só lá íamos durante o verão: Junho, Julho e Agosto. Os meus pais chamavam-lhe "O esconderijo" pois quando queriam "esconder-se" realmente do seu trabalho e dos problemas, era para lá que íamos. No entanto, esta estava mais próxima da cidade que o local onde vivíamos.
Os anos passaram e a situação permaneceu praticamente igual. Hoje, com quase dezoito anos, continuava a adorar passear no extenso jardim do casarão e colher flores para perfumar o meu quarto (actividade que irritava tanto ou mais o jardineiro que as correrias pelos canteiro como fazia quando era pequena). Comigo cresceu a curiosidade relativamente ao tesouro e à sala trancada mesmo ao lado do meu quarto.
Hoje, a um dia de fazer dezoito anos, a ansiedade e a curiosidade, quer relativamente à sala, quer relativamente ao tesouro, atingiu o seu ponto máximo. Se consegui dormir, foi por muito pouco tempo. A curiosidade impedia o sono de chegar.
1 de Outubro de 2000, o dia do meu décimo oitavo aniversário. Ansiara tanto por este dia que agora que ele chegara parecia aliviada, mas ainda não completamente. Apenas à noite, à hora de jantar, seria desvendado o segredo que os meus pais tanto se esforçaram por esconder nos últimos anos.
Fui para as aulas, das nove da manhã às dezasseis horas mas não me conseguia concentrar. Cheguei a casa por volta das cinco da tarde e, como já esperava, ainda não havia sinais dos meus pais.
Ainda estão a trabalhar. - Pensei.
Enquanto subia as escadas para me dirigir ao meu quarto, reparei que a sala ao seu lado esquerdo, há tanto tempo trancada, tinha agora a sua porta entreaberta.
Entrei cuidadosamente, quase em pequenos passos de bebé de forma a não ser notada a minha presença. No entanto, ninguém se encontrava na sala, ou pelo menos ninguém que pudesse reparar em mim. O cenário que me envolvia era aterrador: O chão alcatifado de sangue e os meus pais, ambos mortos (alvejados na cabeça) e deixados por ali ao acaso com a arma entre eles.
A sua morte súbita e violenta, no dia do meu aniversário, tornou-se logo uma obsessão. No primeiro caderno que consegui encontrar escrevi a data e a hora em que os vi, bem como o local e a mais provável causa da morte: assassinato. Liguei de imediato à polícia que não concordou comigo. Olhando para os corpos apenas uma única vez tiraram a conclusão de que provavelmente teria sido suicídio. Ainda assim, como manda a profissão, levaram os corpos para serem autopsiados e a arma para procurarem impressões digitais. Afastei-me. Não aguentava mais estar ali. Dirigi-me ao jardim para pensar pois não acreditava nem que os meus pais se tinham suicidado (logo hoje), nem que uma autópsia ou qualquer outro processo medico-policial levasse à descoberta do culpado.
Terei que ser eu.
Assim dei início à minha investigação. Por qualquer razão que não consigo explicar, julgava que o assassino seria descoberto se o procurasse no dia-a-dia dos meus pais e não seguindo um caminho mais complexo.
Voltei a entrar em casa. Inspirei profundamente e expirei gradualmente Estava a tentar ganhar coragem para entrar no local onde encontrei os meus pais minutos antes. Quando cheguei ao fundo do corredor reparei que a porta anteriormente entreaberta estava de novo trancada.
Os polícias regressaram. Iam interrogar a nossa única vizinha, já que seria quem poderia (mais provavelmente) assistir a movimentações suspeitas.
- A senhora reparou em algo estranho ultimamente na propriedade dos seus vizinhos? - Inquiriu o polícia com o ar sério e profissional que aquelas situações sempre requerem.
- Não, não creio que se tenha dado alguma alteração na rotina dos meus vizinhos. Eles são … eram um casal muito trabalhador, sabe? Iam para o emprego às oito da manhã, exactamente à mesma hora a que eu rego as minhas hortaliças, e só regressam à noitinha, por volta das sete e meia. O que me rala agora é a filha deles, a Violeta. A pequena faz dezoito anos hoje e foi ela que encontrou os pais naquele estado. Pelo que sei vai continuar a viver naquele casarão enorme e eu ajudá-la-ei no que puder.
- Faça isso sim. Nós agora temos que regressar, temos trabalho a fazer. Se se lembrar de mais alguma informação que possa ser útil contacte-nos. - Despediram-se com aquele discurso habitual que por vezes até parece ensaiado.
Ouvir a vizinha a falar dos horários dos meus pais reforçou a minha primeira ideia: tinha que explorar o dia-a-dia deles e descobrir o que se passou hoje.
Regressei ao meu quarto para pensar em como procederia à minha investigação. Quando estava a subir as escadas a campainha soou e voltei a descer os degraus para ir abrir a porta. Eram os colegas e amigos dos meus pais. Formavam uma autêntica multidão. Todos me deram os pêsames e fizeram aquela habitual conversa de funeral. Mas de que adiantava? Agora tinha que descobrir o culpado, só isso importava. Pensei em começar pelas novas tecnologias. Porque não tentar o e-mail?
Problema número um, ou melhor, primeira entrave à minha investigação: Não sei as palavras-chave de nenhum dos dois. Bem, para dizer a verdade, nem eles deviam saber. Nunca sabiam nada de memória. Nem números de telemóvel, nem códigos de multibanco, nada. Absolutamente nada. Por isso, sempre acreditei que os teriam apontado algures.
Dirigi-me ao escritório e comecei a procurar no meio de toda aquela papelada e dentro das gavetas. Sem que fosse minha intenção, enquanto remexia nos papéis deixei cair a jarra preferida da minha mãe que estava em cima da secretária. De início senti-me muito mal como se ela fosse viva e eu visse o desgosto no olhar dela ao ver os cacos no chão, mas rapidamente esse sentimento foi substituído por uma extrema alegria que iluminou o meu rosto.
Um pequeno papel com alguns números escritos a computador tombou para o chão quando derrubei a jarra. Procurei o que me interessava e deitei mãos à obra. Comecei pelo e-mail da minha mãe. Não encontrei nada que pudesse relacionar-se com a sua morte a não ser que as revistas de moda que lhe enviavam catálogos se revoltassem contra ela.
Depois foi a vez do meu pai. Ao contrário da minha mãe, o meu pai tinha a sua caixa de entrada cheia e por isso esperei cerca de cinco minutos até que a página abrisse.
Ora bem: Revistas de caça e pesca online, revista de automóveis online, colega chato a pedir alterações de horários, mensagens ameaçadoras de um remetente anónimo… Acho que este último é capaz de me interessar.
Imprimi todas as mensagens do tal remetente anónimo. Eram todas, iguais constituíam ameaças aos meus pais. "Tens seis meses para me dar o tesouro e ambos sabemos que se encontra por aqui.". Debaixo do texto via-se uma seta a apontar para uma espécie de desenho. Parecia-me uma planta de uma casa. Seria a da minha casa?
Nunca fui muito boa a interpretar e compreender plantas. Sempre as achei confusas. Entretanto lembrei-me de algo que podia ser importante: se em todos os e-mails era relembrado ao meu pai que tinha seis meses para desvendar o esconderijo do tesouro, se visse a data da primeira mensagem, saberia quando terminava o prazo. O primeiro e-mail datava do dia um de Abril.
Um de Abril, Maio, Junho … - Ia contando para mim até chegar à data que pretendia.
- Um de Outubro! - Gritei, talvez demasiado alto.
Após ter pensado que já descobrira todas as mensagens, encontrei uma diferente, embora dissesse o mesmo que as outras.
"O tesouro escondido debaixo do tecto da casa assombrada cobiço. Apenas quem lá habita tem acesso a ele. Apenas quem lá habita sabe onde ele se encontra e tem exactamente seis meses para mo entregar. Pode parecer muito tempo, mas a situação alterar-se-á quando ele começar a escassear."
O tesouro existe realmente. Não era apenas uma história de embalar. Agora cabe-me a mim encontrá-lo e protegê-lo antes que seja tarde demais.
Centrei novamente a minha atenção no que estava desenhado em algumas das mensagens e comecei a pensar que local poderia ser aquele. Rapidamente me apercebi que, para que tudo aquilo tivesse alguma lógica tinha que ser a minha casa. A casa onde vivi durante toda a minha vida.
Sentei-me de novo à secretária e tentei pensar naquela situação como o meu pai ou a minha mãe fariam se estivessem no meu lugar.
Como descobrir o tesouro, essa era a questão (não para os meus pais obviamente já que foram eles que o esconderam muito provavelmente).
Certamente pesquisaria sobre ele. Mas por onde começar?
Olhei para a grande janela que iluminava o escritório, local onde os meus pais passavam horas e horas. Da janela via o imenso jardim da casa da D. Aurora e a fachada. Ainda que sem nenhuma razão aparente, fixei o meu olhar no sótão da sua casa, sobretudo após ver passar um vulto diante da janela. Parecia estar a observar-me e deixava-me completamente arrepiada.
Desci as escadas e encontrei a minha vizinha no seu jardim como era habitual.
Devia estar a arrumar qualquer coisa.
- Boa tarde, Violeta. - Disse-me com o seu habitual sorriso.
-Bom tarde D. Aurora. - Respondi educadamente.
- Ainda não tive oportunidade de te dizer o quanto lamento o que aconteceu aos teus pais. Se precisares da minha ajuda pede, não te envergonhes.
- Obrigada. - Afirmei, retribuindo-lhe o sorriso do seu cumprimento.
- Tomei conta de ti quando eras pequena, posso continuar agora que cresceste.
- Muito obrigada. Se precisar de ajuda saberei com quem contar.
- Até logo querida. - Despediu-se.
- D. Aurora?
-Sim?
- Esteve a arrumar o sótão?
- Estive sim. Ah! Se me viste espreitar com uns binóculos, desculpa se te assustei, mas estava a tentar ver se um cão vadio que anda por aí, não volta a urinar na minha plantação de chá.
- Achei estranho alguém estar com uns binóculos, ainda por cima parecia estar a olhar para a minha janela. Boa sorte com o cão.
Afastei-me e regressei ao escritório. Comecei a procurar em todas as gavetas, no interior de todos os livros, em qualquer armário, qualquer informação que pudesse relacionar com o tesouro.
A verdade é que aquela sempre foi a minha paixão: mistérios. Sei que muita gente não compreenderia se revelasse o que sinto mas a morte macabra e inesperada dos meus pais tinha tornado o dia de hoje o pior, mas ao mesmo tempo o mais interessante de toda a minha vida.
Desde pequena que adoro mistérios, enigmas, puzzles. Muitas peças soltas por montar, pistas para desvendar. Nas minhas festas de aniversário, bem, acho que não é difícil descobrir o jogo que predominava: caça ao tesouro.
Lembro-me de uma em particular. Levámos horas a encontrar o "tesouro". Parecia que os meus pais nos queriam entretidos a tarde inteira. No final do dia descobrimos que o tesouro era apenas um chocolate (ainda que de razoáveis dimensões) em forma de coração embrulhado em papel dourado.
Quando perguntei aos meus pais o porquê de tanto tempo à procura de apenas um chocolate eles responderam simplesmente: "Aquele chocolate representa aquilo que tu tens e terás até ao resto dos teus dias, um coração de ouro.".
Tinha oito anos na altura. Hoje, passados dez anos, ainda não compreendi nem a importância dada ao chocolate, nem a resposta dos meus pais.
Voltei a concentrar-me no que procurava. Procurei, procurei e procurei. Após quatro horas de busca sem resultados entre as centenas de livros dos meus pais, adormeci.
Acordei no dia seguinte, às cinco para as sete da manhã, a sentir-me como se tivesse dormido apenas dez minutos e estava literalmente com a cabeça enterrada nos livros.
Foi então que de súbito encontrei o que procurava e devo dizer que o tesouro não era de todo o que eu esperava.
O tesouro, o tesouro … , dizia agora uma voz fantasmagórica que não conseguia identificar. Percorri o corredor e desci as escadas com cuidado. Não sabia o que esperar. Quando estava a descer o penúltimo degrau da escadaria senti-me como se um imenso cansaço se abatesse sobre mim e caí.
Segunda Parte - A casa assombrada
Ela
Acordei zonza e atordoada. Não estava definitivamente no local onde tinha desmaiado, adormecido ou simplesmente caído. Não me lembrava do que tinha acontecido. Olhei à minha volta. Estava num quarto (já que estava aparentemente sentada numa cama) algures. Estava completamente às escuras. Levantei-me e fui procurar qualquer coisa que pudesse fornecer-me iluminação, quer literal, quer figurativamente. Literalmente, já que precisava de ver melhor o que me rodeava. Figurativamente, para descobrir o que estava ali a fazer. Após dez minutos de busca, na cozinha, encontrei uma caixa de fósforos. Não era o ideal, mas ajudar-me-ia por enquanto.
Tentava descobrir para onde tinha sido levada. Este lugar não me era totalmente desconhecido, mas não me conseguia recordar de algo que me pudesse ligar a ele. Teria que esperar para ver.
Acendi o primeiro fósforo. A luz que exalava não correspondia à necessária, mas tudo era melhor que vaguear na escuridão. Em menos de dez segundos a luz extinguiu-se. Estava de novo no quarto escuro.
Acendi um segundo fósforo e, enquanto me dirigia à sala, um terceiro, um quarto e um quinto, até que lá encontrei o objecto que mais falta me fazia naquele momento: uma lanterna.
Oh, como a sala se iluminou de uma forma diferente! Já aqui estive. Tenho a certeza.
Voltei a dirigir-me ao quarto. Embora não soubesse exactamente porquê, parecia-me o local ideal para pôr os pensamentos em ordem.
Agora, com mais luz, consegui ver que em cima da secretária estavam algumas folhas espalhadas. Agarrei-as e analisei-as com atenção, ainda assim, apenas um olhar foi necessário para compreender do que se tratava.
Isto é… São… As folhas que encontrei com informações sobre o tesouro. Onde estarei? Como vim cá parar? E as folhas, porque estão aqui?
Nada fazia sentido. Mas com esta descoberta lembrei-me que tinha deixado uma tarefa a meio. Não tinha descoberto quem matou os meus pais. Quem quer que tivesse sido, tinha-me raptado com certeza e tinha talvez tido acesso a estas informações e isso não podia trazer nada de bom.
Queria voltar a ler as folhas mas a falta de luz fazia-se notar apesar da lanterna. Por mais que as colocasse exactamente na direcção da luz, as letras escritas à mão continuavam a assemelhar-se a rabiscos algo desfocados que não conseguia compreender a menos que tivesse alguma luz mais forte ao meu alcance, como a luz do sol por exemplo.
Assim sendo, decidi descansar por algum tempo, quem sabe até amanhecer.
Quando abri novamente os olhos estava ainda rodeada por escuridão. Não via uma réstia de luz.
Afinal não dormi tanto como pensava.
Continuava sem compreender o que me levara a este local ou… Quem.
Não ouvia nem via nada à minha volta. Era uma sensação assustadora. O que fazer agora?
Voltei a agarrar nos papéis e na lanterna para, mais uma vez, tentar lê-los. Tinha a impressão que a solução de todo este enigma estava naquelas folhas antigas, empoeiradas e escritas à mão.
Comecemos então.
Primeira página:
" (…) É um bem extremamente precioso e valioso, para quem quer que tenha acesso a ele ou para qualquer pessoa que a ele esteja de algum modo ligado."
Sendo o tesouro da minha família, acho que esta parte é capaz de ser importante. Ainda assim gostava de saber, na prática, o que é que o tesouro faz? Para que serve?
Segunda página:
" O tesouro será um amuleto da segurança para qualquer alma que a ele estiver ligada. "
Como assim?
" Tem a capacidade de se transformar em algo benéfico quando encontrado pelas pessoas certas, ou num pesadelo se cair nas mãos erradas."
Por mais que lesse não compreendia nem o que era o tesouro, nem qual a sua utilidade.
A única certeza que tenho é que, com a morte dos meus pais, é meu dever proteger o tesouro e evitar que caia nas mãos erradas, mas para isso tenho que o localizar.
Ele
Por mais estranho que pudesse parecer, dirigi-me à praia quando já estava a escurecer. Vagueava pelo areal como se procurasse algo que não conseguia encontrar. De certa forma era verdade: procurava algo para fazer.
Parei de caminhar. Sentei-me para pensar. Tirei da minha mochila o post-it que ocupava a minha mente desde há algum tempo. Ainda me lembro do dia em que me veio parar às mãos.
Estava a caminhar para a praia quando senti alguém puxar-me para trás, pô-lo no meu bolso e fugir. Todos os dias olho para ele a fim de compreender o significado do que lá está escrito, 02X00, mas sempre em vão.
Para além deste quebra-cabeças insolúvel há outra coisa que me atormenta. A cidade onde vivo não é muito grande, por isso, os boatos correm depressa. Dizem que existe uma casa assombrada. Já me aproximei dela, mas dizem que é perigoso lá entrar, que quem lá entra não sai, que ela esconde um segredo e outros disparates em que eu não acredito. Ainda assim, nunca lá entrei. Não sei o que esperar. Talvez hoje seja o dia ideal para experimentar.
Ia-me aproximando a pouco e pouco. A porta estava entreaberta, o vento fazia ranger a madeira das janelas e o meu ritmo cardíaco aumentava a cada minuto que passava.
Estava agora a pouco mais de um metro da porta. Dei mais um passo e estendi o braço para a abrir, cuidadosamente.
O primeiro passo no interior da mansão assombrada fez-me sentir um calafrio que percorreu todo o meu corpo. Premi o interruptor para ligar as luzes, mas fora em vão. O meu medo subitamente cresceu. Estava numa mansão alegadamente assombrada e submerso num pesado negrume. Apesar de já bastante acelerado, o meu ritmo cardíaco atingiu o seu ponto máximo apenas alguns minutos depois, quando, de súbito, a porta de entrada é fechada e trancada atrás de mim.
E agora? O que faço?
Estava aterrorizado. O meu coração batia aceleradamente e eu tremia como varas verdes. Tentei concentrar-me. Pensei no que me levara ali. A curiosidade. Ouvira falar de misteriosos assassinatos e de um tesouro escondido.
Estaria de facto ali?
Tinha que descobrir. Sem luz era pouco provável, mas podia sempre esperar pelo amanhecer, pela luz natural.
Caminhei, tacteando tudo o que pudesse atravessar-se no meu caminho. Um tropeção aqui, um piso escorregadio ali e, após trinta segundos e o equivalente em nódoas negras encontrei o sofá, deitei-me e adormeci.
Acordei por volta das oito da manhã. Conseguia finalmente ver o que me rodeava. Estava numa mansão enorme, de facto, mas não a consideraria assombrada.
Retirei de novo o post-it da minha mochila. Continuava sem perceber a mensagem e porque é que junto a ele me tinham entregado uma chave. O que abriria?
Decidi então percorrer todo o andar inferior. Não observei nada que fosse motivo de estranheza. Parecia-me uma casa perfeitamente normal, habitada por pessoas como aquelas que passam por mim na rua diariamente. O único facto que poderia considerar suspeito estava, no entanto, exactamente no que acabara de dizer: Os únicos habitantes da casa desapareceram, como pode ela parecer habitada?
Após alguns minutos no andar de baixo, resolvi subir as escadas e ver o que andar superior tinha para me oferecer.
Subi as escadas e lá encontrei apenas aquilo que seria normal encontrar: seis quartos, três casas de banho, um escritório e uma divisão trancada. O meu primeiro instinto levou-me a experimentar a chave (que me tinha sido entregue juntamente com o post-it) na porta. No entanto, tal como grande parte dos meus "primeiros instintos", estava errado. Aquela chave era demasiado pequena para a fechadura. Voltei, por isso, a guardá-la.
Pensando que nos quartos e nas casas de banho não encontraria nada de interessante, fui ao escritório. Assim que entrei vi diante de mim enormes estantes com imensos livros nas prateleiras. Perto delas estava uma secretária com alguns livros sobre ela. Sentei-me e folheei alguns. A grande maioria falava de arte, história ou ambos.
Li passagens de alguns, mas não por muito tempo. Uma estranha sensação apoderou-se de mim. Sentia-me observado. Não conseguia explicar porquê, apenas sentia aquele incómodo bizarro que normalmente indica que estamos a ser vigiados.
Levantei-me e fui à janela. A vista era a do jardim da casa ao lado, mas um pormenor mais importante escapara-me, traçando assim o meu destino.
Terceira Parte - O ponto final da busca pela lenda
Durante anos e anos pesquisei tudo o que haveria para saber relativamente ao tesouro daqueles que, mais tarde, viriam a ser os meus vizinhos do lado. Pesquisei em livros antigos da biblioteca, em sites da internet especializados em assuntos do mesmo género, mas fora em vão.
Até que um dia consegui descobrir o que o tesouro era, mas nunca a sua localização. Não me disseram muito sobre ele, mas fora suficiente. O passo seguinte era aproximar-me do meu "alvo". Por isso, fui morar exactamente para o seu lado. O objectivo de viver ao seu lado era estudar cada um dos seus movimentos. Instalei microfones e micro câmaras na casa, o que me permitia ouvir e ver tudo o que faziam ou diziam sem levantar suspeitas.
Eventualmente consegui entrar na casa. A primeira vez foi a mais simples. Ninguém estava em casa. O casal saíra para trabalhar e a filha estava na escola há pelo menos uma hora. Não podia falhar. Escondi-me até ao momento em que chegaram. Assim que entraram em casa, foi apenas esperar pelo momento certo para atacar.
A segunda vez demonstrou-se mais complicada do que esperava. Talvez por isso tenha sido menos cuidado. Ainda assim consegui esconder-me e esperar que ela se dirigisse ao escritório e voltasse a sair. Enquanto descia as escadas consegui surpreende-la e… Bom, o resto imaginam.
Quando julgava ter o caminho livre para procurar o tesouro, descobri que uma outra pessoa estava envolvida. Não podia deixar que alguém se intrometesse e, por isso, rapidamente tratei do assunto.
1 de Outubro de 1995
O dia em que cheguei a esta casa. Uma senhora regava as suas plantas. Reparei que tinha uma tabuleta a informar que tinha um quarto para arrendamento. Não podia perder esta oportunidade. Aproximei-me.
- Bom dia. - Disse com simpatia.
-Bom dia. Está perdido? - Perguntou a senhora.
- Não. Na verdade estava à procura de um quarto para arrendar e parece que vim ao sítio certo.
- Bem, o que tenho para arrendar não é bem um quarto, é o meu sótão, mas está mobilado e muito bem cuidado.
- Para mim serve perfeitamente.
- Quer vir vê-lo então?
- Sim, por favor.
Levou-me ao sótão. Não podia estar melhor localizado. Através da sua pequena janela conseguia ver o escritório dos nossos vizinhos, local onde eles passavam grande parte do seu tempo.
- Parece-me óptimo. - Afirmei com sinceridade.
- Ainda bem que se sente confortável. Pode instalar-se, discutiremos o preço mais tarde.
- Quando quiser, Dona ..?
- Aurora.
- Quando quiser D. Aurora. Este quarto vale todo o dinheiro que me possa pedir.
Quarta Parte - O ponto final da busca pela lenda
Ele
Acordei num local que desconhecia por completo. Apesar de serem apenas dezassete horas à minha volta via apenas escuridão.
Onde vim parar?
Olhei à minha volta. Embora não visse nada, senti uma presença. Poucos segundos depois alguém tocou no meu ombro e eu dei um pequeno salto para trás devido ao susto.
- És tu? - Perguntou a voz docemente esbatida no negrume. - És tu o rapaz a quem confiei o meu destino?
- Quem és tu?
- Lembras-te de te entregarem, há um ano atrás, uma chave e um papel?
- Foste tu? - Indagou estupefacto.
- Fui. - Respondeu a voz com naturalidade. - Encontraste-o?
- O quê?
- O tesouro.
- Ele existe? - A curiosidade sobre quem estaria a falar comigo aumentava de cada vez que ouvia o som da sua voz.
- Existe. Encontraste-o?
- Não, pensei que fosse apenas uma lenda.
- Não é. Vens procurá-lo comigo?
Ela
Ele aceitou. Tentei abrir a porta para ir à praia e pensar um pouco sobre o que fazer a seguir e para que pudesse olhar para a única pessoa que demonstrou verdadeiro e desinteressando interesse relativamente ao tesouro. Outras pessoas já tinham vindo falar comigo e com os meus pais ao longo dos anos. Recordo-me principalmente do nosso vizinho. Um homem que quase nunca víamos mas que sempre questionou os meus pais relativamente ao tesouro de uma forma bastante sinistra. Mas a meu ver, o seu interesse era puramente material.
Conseguia, agora, sentir o rapaz a aproximar-se. Após alguns minutos, arranjou coragem para falar.
- Como vamos encontrá-lo?
- Não sei. Mas tenho a certeza que ele está aqui.
- Como podes ter tanta certeza? - Duvidou ele.
- Sabes como chamavam os meus pais a este local?
- Como?
- O esconderijo.
- Mas quem és tu afinal? E o que é que isso significa exactamente?
- Vou responder-te, a ambas as questões. O meu nome é Violeta. Sou filha do casal que morava na casa que tu dizias estar assombrada. Vivi lá durante toda a minha vida, toda mesmo, já que foi lá que morri.
- Morreste? Mas… Estás a falar comigo! Estou a enlouquecer não estou? - Inquiriu o rapaz mais confuso do que alguma vez estivera.
- Quanto à tua segunda pergunta, existem duas razões para me levar a crer que o tesouro está aqui. Primeira: Os meus pais chamavam a este local "O esconderijo" e nunca acreditei na desculpa de se "esconderem do trabalho".
- E a segunda razão? - Questionou. Sentia alguma inquietação na sua voz.
- A segunda é que li que o tesouro atrairia para si a alma dos seus guardiões quando estes falecessem.
- Então … O que é que eu faço aqui? O que é que isto significa? - Ele estava agora mais assustado que nunca.
- Significa que morreste.
- Morri?
- Sim, morreste. Só não compreendo porque foste atraído para aqui.
Ele
Durante alguns minutos Violeta não me dirigiu a palavra e ainda bem. Na minha mente tinham ficado apenas as palavras "Significa que morreste". Como era possível ter morrido? Tinha ainda tanto por fazer e por dizer. Não podia ser verdade. Encostei a minha mão ao peito e foi aí que me apercebi da terrível verdade: o meu coração já não batia.
De súbito comecei a senti-la aproximar-se.
- Já sei! - Gritou.
- Já sabes o quê?
- Já sei porque estás aqui.
- Então diz-me.
- A chave.
- Que chave?
- A que te dei, com o post.it, lembras-te?
- Sim, eu tenho-a aqui comigo. Mas continuo sem compreender onde queres chegar.
- E se a chave abrir a porta ou o que quer que dê acesso ao tesouro?
- É possível. - Concordei. - Mas como procuramos sem luz?
- Tacteando.
- Estás a brincar, certo?
Tens alguma sugestão melhor?
Assim foi. Durante aquilo que, mesmo que tivessem sido cinco minutos, pareceram largas horas, tacteámos grande parte da superfície do local onde nos encontrávamos. Fora totalmente em vão, ou pelo menos assim parecera até que…
Ela
- Encontrei!
- O quê?
- Acho que encontrei o esconderijo do tesouro. Há aqui um alçapão. Junto ao sofá.
- Consegues abri-lo?
- Não. Está trancado. A chave! Consegues atirá-la?
- Espera. - Pediu.
Pediu-me ainda que continuasse a falar. Seguiria o som da minha voz até me encontrar e não demorou mais de um minuto a fazê-lo.
- Aqui a tens.
Agarrei-a e apalpei novamente o chão para procurar a fechadura do alçapão e tentei descer, cuidadosamente, até à divisão que se encontrava por baixo dele.
Descemos os dois e, quando nos vimos novamente com os pés assentes no chão, resolvemos procurar o tesouro.
Esta sala era exactamente igual ao resto da casa: negra. Estávamos, como sempre, completamente às escuras ou pelo menos assim parecia, de início.
Ele
Sem que de forma alguma estivéssemos à espera, no fundo da sala começámos a ver uma pequena luz brilhante e reluzente. Dirigimo-nos a ela. A luzinha não se afastava à medida que nos aproximávamos o que fazia crer que não era um pirilampo mas sim um objecto.
Chegámos ao lado oposto da sala e embatemos na parede. Pouco mais de cinco metros à nossa esquerda estava o objecto brilhante. Aproximámo-nos mais e mais até que ficámos exactamente diante dele. A luz que libertava permitia definir a sua forma: um coração.
Ela
Do mesmo modo que nos permitiu definir a sua forma, a luz permitiu-nos ver que ao seu lado estava um outro objecto ou outros. O primeiro que agarrei era um gravador. Ao lado do gravador estava uma folha, um e-mail impresso. Foi o meu pai quem o enviara ao remetente anónimo que lhe fez ameaças durante seis meses. Aparentemente, não só o prazo estabelecido para o meu pai terminava no dia do meu aniversário, mas também o do assassino.
O meu pai tinha descoberto tudo. Todas as ambições de quem quer que fosse o remetente anónimo, todos os seus planos, e estabelecera o dia 1 de Outubro como datam limite para não levar aquela gravação à polícia. Infelizmente, não foi a tempo.
Ele
Durante alguns minutos apenas olhámos para o pequeno objecto. Demorámos algum tempo a apercebermo-nos de um facto curioso: apesar de brilhar, a sua cor era o preto. Era negro como a noite. Resolvemos então tocar-lhe. A sua textura fazia lembrar a de um metal precioso como ouro ou prata, não conseguíamos especificar. Assim que as nossas mãos lhe tocaram, a sua cor passou de preto a dourado e posteriormente de dourado a violeta.
A segunda mudança foi ainda mais veloz que a primeira, não sendo, no entanto, a mais visível.
Aquele lugar, que nos últimos tempos lhes tinha parecido uma caixa de cartão selada, sofreu uma alteração inimaginável.
Ela
Primeiro a divisão onde nos encontrávamos iluminou-se, instantaneamente. Estava praticamente vazia, apenas guardava alguns brinquedos e roupas antigos. Lembrava-me de todos eles mas não havia tempo, tínhamos que sair dali. Subimos as escadas e dirigimo-nos à sala de estar cujas mobílias e decorações tinham sido visivelmente renovadas, tal como de todas as outras salas.
Nem queríamos acreditar! O próprio céu, há tanto tempo negro e pesado se iluminara. Um azul tom de mar límpido e brilhante sobressaía agora. Como tinha saudades!
Por fim a praia, que no último ano fora fria e sombria voltava agora a ser a praia da minha infância.
2 de Outubro de 2001
Acordámos, ao mesmo tempo, por volta das seis da manhã. O sol ainda mal nascera e uma brisa fresca matinal pairava no ar da praia.
- Ainda não compreendi. - Disse ele.
- O quê? - Questionei ensonada.
- O post-it, o que significava?
- Era muito simples. 02X00. Uma data. Dois de Outubro de 2000, o dia em que morri, há exactamente um ano atrás.
Agora lá fora, vimos que na parte de trás do coração de ouro estava uma contagem decrescente. Dentro de meia hora teríamos que regressar àquele local (onde o encontrámos) ou o seu efeito anular-se-ia para sempre.
- Já não temos muito tempo. Há uma última tarefa que preciso de cumprir, vens comigo?
- Claro. Onde vamos?
Tal como acontecera com a rapariga e com o rapaz, sabia agora que outra pessoa estava envolvida e que tinha em seu poder todas as provas que me incriminariam dos quatro assassinatos. Só não sabia quem era.




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