Save on all your Printing Needs at 4inkjets.com!

Uma questao de honra

By: Ricardoma

Page 1, A portuguese \"Ellery Queen\" are you a Miss or Mister Sherlock Holmes? we will find...

 

 

 

 

 

 

 

 


UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIO
 
   Naquela manhã o sol brilhava intensamente, coisa rara nos últimos dias. Estava uma manhã demasiado esplêndida para que o telefone estivesse a tocar furiosamente, como era o caso. Parecia que todos os habitantes da cidade aproveitaram o mesmo momento para pegar no aparelho e marcar o mesmo número. Aquele ruído já me estava a incomodar, ou talvez não passasse apenas de mera impressão minha, pois que já era habitual, nas noites anteriores aos dias de folga, viesse e chegasse de gatinhas, de rastos, ou outra coisa qualquer do mesmo tipo ao que muito pomposamente chamava de “a minha casa”, a qual não era mais nem menos que apenas quatro paredes nuas e assoalhadas praticamente vazias, desde que “ela” se fora. Também, a partir dessa altura, estivesse de folga, estivesse de serviço era igual ao litro, na maior parte das vezes igual a um litro multiplicado por bastantes mais, com a agravante de serem decilitros misturados, misturas bombásticas como tinha sido a anterior. A boca ainda tinha o sabor de papeis de música.
   Estas carraspanas de levar um homem de caixão à cova, só aconteciam desde que “ela” me abandonara. Com isso só lhe podia agradecer o ter-me tornado numa esponja ambulante, mas nem de longe o meu poder dedutivo sofrera qualquer diminuição. Antes pelo contrário.
   Aquele maldito toque, mas que porra, com os demónios, estava-me entranhado nos ouvidos ou estaria o telefone mesmo a tocar?. E quem seria o desgraçado que se atrevera e decidira estragar o meu dia com aquela linda brincadeira?. Pessoal lá do gabinete de  investigação não podia ser, sabiam
                                                                             1
           

que estava de folga e que detestava ser incomodado quando chegava esse dia, os meus “amigos de noitadas” também não deveriam ser, já que não havia muito tempo que saíramos do último bar, por isso supunha que se tinham deitado mais ou menos na mesma altura que eu, quem diabo seria?. Decidi atender, ainda dava em doido com tanta insistência do trim-trim estridente.   
   - Está?, Está sim?, Está? – falaram, assim que levantei o auscultador.
   - Também eu – retorqui em resposta, não sei se zangado se fazendo-me, posto que tinha reconhecido a voz que estava no outro lado. Pertencia sem dúvida nenhuma à loira mais oxigenada, que jamais em tempo algum, tinha posto os pés e, porque não o resto do corpo, na cidade. Era boa, mais que boa, como o milho, só que para nós ficava o consolo da visão, já que o conteúdo estava vedado a todo pessoal do meu gabinete e, também isso se aplicava a todos os restantes departamentos, menos um. Aquele delicioso manjar era por assim dizer, um osso que já tinha cão, e que enorme mastim, nada mais nada menos que o próprio “Chefão” que a tinha “apadrinhado”. Aliás, era esse o único motivo da permanência da loiraça ali, já que esta não sabia nem sequer ligar um computador, quanto mais bater duas linhas seguidas numa velha máquina de escrever ou mesmo no teclado do computador, (quem sabe, se não era especialista em bater outras coisas). Ainda assim uma coisa fazia a Vénus, e demasiado bem, fazia-nos felizes, cada vez que trazia uma super mini-saia, que mostrava toda a sua formosa tranca, que nos deixava atordoados e a ter pensamentos pecaminosos para mais de um mês.
               2  


   - Bem, tem de ser algo de muito grave mesmo, para me chateares a estas horas – cuspi eu através do telefone – ainda agora a madrugada é uma criança. Vais incomodar o inspector Rick e o Matos também?. Não me digas que é algo relacionado com aqueles crimes que andamos a investigar, despejei sem lhe dar tempo nem de se assoar.
   - É isso mesmo, - falou a doçura com voz melíflua – e para tua informação já passa do meio-dia e, se te agrada saber o Ricardo e o Matos já estão a caminho. Portanto vê se te despachas, o “Chefão” não pediu a tua comparência... ordenou que te apresentasses em estado... decente.
   - Miga, isso com o “eu” não pega – resmunguei furioso – guarda as tuas graçolas para quem sabes. Já estou a caminho, gritei batendo com o telefone e desligando de imediato.
   Vesti-me apressadamente, tive de descalçar uma meia, o par não condizia, bebi quase cinco litros de água, não para afogar as mágoas, mas sim porque a bêbada da noitada anterior deixava-me a garganta mais seca que o deserto do Góbi. Procurei a carteira, nem sombra nem sinal dela, talvez a tivesse deixado no bar do José, um dos últimos bares dos quais me lembrava de ter pago algumas rodadas.
   Pelo caminho, recordava e pensava nesta estranha série de crimes que tinham desabado sobre a cidade, principalmente cometidos na zona nobre, como era conhecida a parte compreendida entre a Praça do Bocage, Bonfim e Bairro do Liceu, se bem que hoje em dia já não existisse essa opinião generalizada, de que ali era a cidade da “Alta” e, os bairros periféricos, Viso, Reboreda e Bela Vista, a cidade composta pela  bicheza, o coito de  prostituição e ladroagem. Tudo isso
               3


deixara de fazer parte dos pensamentos divisionários da população, logo após o primeiro assassinato. No total, pelo menos até agora, já eram seis os crimes cometidos dos quais a polícia tivera conhecimento. Por outras cidades procurava-se saber se o “modus operandi” se coadunava com os praticados em Setúbal. Sabia-se pelo menos que todas as vítimas tinham algo em comum: primeiro, o assassino ou assassina, só atacava mulheres, fossem elas jovens ou velhas, completamente indefesas, o que indiciava um estudo mais ou menos aprofundado sobre os hábitos das vítimas. Segundo ponto em comum, até agora nenhuma das assassinadas era portuguesa de gema. As suas origens eram as mais variadas.
   O primeiro corpo a ser descoberto fora a de uma tal Se’ Leste m’Lamb, de origem nitidamente sul-africana, professora de línguas na Universidade Coronal, mulher de meia idade, nem feia nem bonita. Quando nova devia de ter os seus atributos, mas nada por aí além. A seguinte, Helen Costa de pais açoreanos, nascida em New Jersey, um alto cargo numa dependência bancária, cinquenta e tais anos que não se notavam, depois Lígia “The little boss”, assim designada por ser de pequena estatura, uma activa dirigente sindicalista. A quarta vítima descendente de portugueses radicados na Sicília havia muitos anos, chamava-se Isabella Marquesse, trintona, não se conhecia ao certo a sua profissão. O relatório número cinco dava-nos conta de uma tal Giz “E.T.” Ferrey, natural das terras de Sua Majestade Isabel II, mas com ascendentes lusos, seu esposo, segundo constava, trabalhava para o M.I. 5, finalmente o último relatório com a data de quatro dias antes, assinalava a morte por asfixia de uma tal Mary Linn, mais  conhecida  por “Madame Min”,  operadora  de caixa num
               4


pequeno refeitório. Se esta chamada era devido a mais um “acidente”, então perfazia o número de sete mortes violentas. Sete, a conta da mentira, mas infelizmente, era bem verdade. Sete corpos, sete crimes. Sete registos em outros tantos relatórios ainda não solvidos.          
   Cheguei à Central, enquanto o diabo esfrega um olho, o Matos já lá estava, e o Ricardo tinha sido destinado a outra tarefa importante. O primeiro esperava-me, penso até que ele já tomara conhecimento de todos os pormenores sórdidos de mais um crime, e não estava enganado, em passadas rápidas voltámos para o meu “Alfafa Romeu”, já com uns bons anitos de uso e desgaste e, se por acaso algum dos meus colegas do Trânsito, um dia me mandasse encostar, bem que poderia subornar tudo e todos que nem isso me safaria. Decerto que o meu bólide iria fazer parte da colecção de sucata do parque automóvel mais próximo, pertença da C.M.S... Mas de momento não era isso que interessava, importante mesmo era o que o Inspector Matos, meu colega, estava a falar. Uma imagem deliciosa ia-se formando na minha mente.
   - ... Longos cabelos encaracolados, boca formosa, talvez grande em demasia, constituída por uns lábios cheios e apetitosos, corpinho magro estilo “garrafa de coca-cola”, aproximadamente quarenta anos... em suma uma noite bem passada, ia contando Matos.
   Uma noite bem passada sim, até mais que uma centena de noites, ninguém na Central, absolutamente ninguém, e muitos poucos fora dela, sabiam ou sonhavam, que em determinada altura eu estivera completamente perdido por uma beleza quarentona. Nem sequer passava pelo pensamento daquela gentinha. Só eu sabia o que  havia perdido, e como tinha sido
               5
            
bom. O tempo não recuava jamais. Todos eles julgavam que eu bebia para afogar outros dissabores, corria voz em diversos gabinetes que eu jogava pelo “contra” e que me perdia com outros da minha espécie, obviamente que estavam redonda e completamente enganados; eram uns quadrados, todos eles.
   Estávamos praticamente a chegar ao bloco habitacional onde presumivelmente tinha sido cometido mais um acto criminoso da série sangrenta, que todos os inspectores faziam por estancar o mais rapidamente possível. Ninguém se poupava a esforços para a captura do malandrim, cujas manchetes da imprensa faziam por sobressair a sua esperteza, rebaixando ao máximo a diligência empreendida pela polícia com vista à prisão do bandido.
   A localização era num apartamento por cima do Centro Comercial Bonfim, um pouco fora da zona onde tinham sido cometidos os crimes anteriores, mas ainda assim dentro da chamada parte “Alta”. O diabo do homem tinha estilo para escolher as zonas boas, ou boazonas. Tinha uma ligeira impressão de que o tipo era pró “Gai-vota”.
   O porteiro, homenzarrão de corpo e fuças idênticas aos de um orangotango, sem desprimor para o último, com solicitude veio ter connosco e, sem que nem eu nem o Matos tivéssemos aberto a boca para fazer perguntas, inundou-nos logo a “caixa dos tímpanos”.
   - Era uma desconhecida aqui, ou pelo menos eu nunca a tinha visto antes; aliás se querem mesmo saber, desde que este apartamento foi vendido nunca vi aqui ninguém, nem mesmo o dono. Agora sei que era dona, e que bela pêssega meu Deus, sim senhor, aquilo é que era uma mulher com tudo
                    6


nos seus devidos lugares. Ah, quero também informar-vos que tive um trabalhão enorme para espantar daqui para fora um caça-notícias. Corri-o quase que a pontapés. Não sei porque carga de água decidiu aparecer aqui hoje, talvez lhe desse o cheiro, por isso agarrei com muita ternura numa das orelhas do fulano e, sussurrei-lhe que se lhe restava algum amor à pele, o melhor que havia de fazer era olear os sapatinhos, dar corda nas perninhas e pôr-se a andar enquanto tivesse tempo para isso. Acho que ele entendeu, fiz bem sargento?.
   - Fizeste bem, sim – resmunguei, pensando com os meus botões se o homem não tinha escondido a orelha do pobre diabo algures – fica sabendo que sou inspector, assim como o meu colega aqui presente. Não sou sargento..., continuou mastigando as palavras. Não sei se outro inspector vem a caminho, o nome dele é Ricardo, o inspector Rick, em todo o caso fique alerta. Vamos lá ver esse corpo.
   Subimos, por azar como o elevador se achava avariado, a distância dos dois andares foi transposta a “butes”. Comigo era sempre assim, os elevadores nunca funcionavam, ou então pura e simplesmente não existiam, já se tornara num hábito subir e descer escadarias. Felizmente que só tinha de subir dois andares, mas que com aquela ressaca, mais se parecia com a escalada do Everest. O pequeno e cuidado apartamento já fervilhava de pessoas, olhando para cima, espreitando para baixo, mirando para os lados, eu sei lá. Os meus queridos colegas tinham chegado ao local antes cá do “Pipas”, como era chamado entre eles. Os “bonecos” haviam sido tirados e, no momento da minha entrada estavam a tratar do transporte do corpo, só que não dera pela presença da “fiambreira”. Despejei uma  mirada para o que me era possível ver  daquela
               7


figura, um estremecimento percorreu o meu corpo, não sei como, mas fiquei com a impressão que ninguém deu por isso. Mesmo que alguém visse que eu estremecia, consideraria o facto como normal, apesar de já ter confrontado a morte inúmeras vezes. O corpo ali estendido era de uma beleza fenomenal, nem a morte lhe retirava o que quer que fosse das suas expressões ou formas. Fui posto ao corrente de todos os pormenores que se rotulavam de importantes e, que sem retirar nenhuma vírgula eram os mesmos que haviam sido encontrados nos casos anteriores, com a particularidade de que o inspector Rick seguia agora uma nova pista.
   Ausência de quaisquer documentos da vítima, nenhuma fotografia visível ou invisível. Morte provocada por arma de fogo, dois tiros no coração, um só chegaria tal fora a precisão. Arma de grosso calibre, mas essa confirmação só chegaria depois da autópsia, já que quem quer que fosse o criminoso, este era sem dúvida eficiente e suficientemente esperto para levar as cápsulas consigo, não deixar quaisquer impressões digitais e, consequentemente levar tudo o que o pudesse implicar no caso. Facto era que, em mais de um crime, houvera a ausência de fotografias. Por ali, tudo o que se via era uma salganhada de todo o tamanho, para sacar dali uma impressão em condições, se por acaso se desse esse milagre, implicava horas e mais horas de trabalho, mas como os milagres estavam em greve...
   O telefone tocava, um dos agentes dirigiu-se para o aparelho e atendeu.
   - Estou?, ‘tou xim?, passou a ligação para mim.
   - Inspector Pedro? – perguntaram do outro lado.
   - O próprio, em carne e osso, sou todo ouvidos – repliquei. 
               8   


   - Ó meu camelurso, (cruzamento de camelo com ursa ou o inverso?), não quer saber o que é que tenho aqui e que lhe pertence?. É claro que vai querer saber sim...
   - Amizade, desculpe interrompê-lo, mas isso do camelurso não deve ser comigo, e o que tem aí também não deve ser muito importante, com certeza que se trata de um engano...
   - Acha então que é engano seu piolhoso?. Vejamos então se refresca a memória. Várias fotografias femininas, algumas bem jeitosas por sinal, um bilhete de identidade passado em nome de Pedro Pires, que suponho seja o senhor, mas para confirmar está aqui a cedulazinha de identificação passada pelo organismo competente do Ministério. Não brinqueis meu fofinho, tu és o meu totoloto, uma lotaria instantânea podes crer, a sorte grande e terminação que me sai no sapatinho muito antes do Natal. Podes ir separando umas “notas pretas” daquelas que tem uns vitrais e são azulinhas. Para começo leva umas cem delas, mais logo, por volta das vinte e uma horas no “Rosa Vermelha”, tomaste atenção ao recado meu camelo?, nem uma a menos ou já sabes o que te espera...
   Ia para responder, mas do outro lado haviam desligado. Suava por todos os poros. Sorte macaca, agora que as coisas estavam a seguir como o previsto, tinha de aparecer este palhaço para estragar o jogo todo. Não!, não mil vezes não, tinha de arranjar uma maneira de me sair daquele sarilho, de preferência inteiro e sem pagamentos adicionais. Disse ao Matos que por força das circunstâncias tinha de me ausentar durante umas duas horas ou mais, se algo de novo se descobrisse quando chegasse gostaria de ser informado, além de todas as novidades que o inspector Rick pudesse trazer. De  qualquer dos  modos manter-me-ia  em  contacto com ele,
               9

 

Matos, ou com qualquer outro agente destacado para o caso.
   Na entrada, após uma descida bem rápida, enfrentei pela segunda vez o “Orangotango”, que repimpado via televisão e, tentei obter melhores informações sobre o jornalista que por ali andara a farejar. O bom homem, apesar de tudo foi bastante prestável, indicando-me dois nomes prováveis. Estava excluída a hipótese do amigo Luís Vaz, repórter de certa nomeada, que costumava acompanhar o seu colega Rick.
   Durante alguns largos minutos, entretive-me a fazer uns quantos telefonemas até encontrar o “sanguessuga”, e dei comigo a fazer o que faz o Armando, (se não sabem, ficam agora a saber que esse menino umas vezes vai a pé, outras vai andando). Pouco mais de meia hora depois, dei comigo numa viela, que de recomendável tinha muito pouco ou nada. A morada fora-me fornecida por meios um tanto ou quanto fora dos padrões normais, mas tinha muito a perder se não a conseguisse e se agora não fosse para a frente e terminasse o assunto em questão.
   Nestas vielas o lema é “cada um trata de si, os outros que se lixem”, isso vinha em todos os manuais da polícia, só assim me foi possível agir com o mesmo à-vontade com que o faria na minha casa. Entrei numa casa, quase no final da viela escura e praticamente sem vivalma, com o auxílio da minha ferramenta especial, uma micha que já me tinha livrado de alguns apertos, depois de verificar que ninguém respondia ao toque do batente enferrujado. A espera até que não foi longa, vinte e cinco a trinta minutos depois, senti alguém meter a chave na porta e, pronto para dar as boas-vindas ao dono do tugúrio, fixei a vista na entrada, sentado no canto mais escuro que tinha encontrado. Escusado  será dizer que, desde
              10


que entrara e durante o meu compasso de espera tinha passado revista por aquele buraco. Se tivesse mais tempo acho que até as tábuas do soalho levantava.
   Algum tempo depois de ter fechado a porta atrás de si, entrar na sala e, acender a luz é que o pobre diabo do jornalista pressentiu que não se encontrava sozinho. De certeza absoluta que eu era uma companhia não desejada, porque o desgraçado resfolegou como uma locomotiva antiga numa subida íngreme. O jovem jornalista ia jogar as mãos aos bolsos mas rispidamente instei-o:
   - Quieto rapazinho, nem mais um movimento, - depois com bons modos pedi – por favor devolve-me já aquilo que sabes ser meu e sem fazeres barulho.
   Desgraçadamente, para o jornalista, foi uma infelicidade o que aconteceu. O moço negava a pés juntos ter algo que pertencesse ao inspector Pedro Pires, este queria por força e necessidade, receber o que era seu. Aquela carteira e o seu precioso conteúdo eram a sua salvação da cadeira eléctrica, (que infelizmente não existe em Portugal), já que ali se encontrava a solução de...
   - Diabos rapaz, já me estás a chatear com as tuas burrices, se pensas que tens algum trunfo na manga, olha que eu jogo com seis ases e dois jockers.
   Não era à toa que eu me tinha safo até agora, sempre e apenas frequentando bailaricos populares, onde media e escolhia a dedo as possíveis “conquistas”, isto nesta vida de pobretanas, para se a levar a bem, era preciso apenas um gajo ter muita calma, descontracção e estupidez natural. Outras vezes, lá de longe em longe, se preferirem assim, só era necessário um indivíduo pintar os escaleres de encarnado,
              11
               
vestir-se de yellow e, fazer-se à life antes de se azular. O melro já me estava a cansar com tantas negativas, tanto me caceteou que acabei por lhe dar cabo do canastro, tendo de sair dali apressadamente por motivos óbvios. Nem pude apalpar o desgraçado, acabando por nem saber se o volume que se notava por debaixo do seu casaco de cabedal era de uma arma ou da minha carteira.
   Afastei-me dali o mais depressa que me foi possível, sem ter notado também uma sombra que me era demasiado familiar. Voltei ao ambiente carregado do apartamento onde se encontravam ainda os meus distintos colegas em acalorada discussão. Matos esperava a minha chegada. Queria que o acompanhasse não sei onde.
   Com o carro em andamento lento, o trânsito naquele local era uma constante dor de cabeça e, processava-se fosse a que horário fosse muito lentamente, o meu colega transmitia a morada para onde nos deslocávamos. Involuntariamente estremeci, se ele deu por isso não mostrou qualquer indício. Pelo lado que me tocava também quanto mais dissimulasse os meus pensamentos e sentimentos melhor. Tão absortos ia-mos que dir-se-ia ter abatido um muro entre os dois.
   Não havia dúvidas, o local para onde o Matos me levava, era precisamente aquele que tinha abandonado, com fogo no rabo, ainda não havia nem uma hora. A direcção era a mesma onde tinha deixado um corpo estirado no chão e, nem precisavam de impressões digitais para nada. A balística encarregar-se-ia de fornecer um nome...
   ... Sorte macaca, tudo planeado até aos mais ínfimos pormenores. Bem, nem sempre se pode ganhar.
   Uma  outra equipa, esta  coordenada pelo inspector Ricardo
              12


ou Rick, já lá se encontrava. O corpo havia sido removido há alguns minutos atrás, só que achei estranho a rapidez com que tudo estava a acontecer, pairava no ar um não sei quê que não me estava a agradar. Mesmo nada...
   O Matos ficou a ocupar a porta de acesso ao pequeno cubículo, vários agentes tomavam as suas posições no quarto. Isso cheirava-me a esturro. Essa impressão passou a certeza quando o inspector Rick se deslocou para um televisor que permanecia ao fundo do quarto. Como se de um técnico de electrotecnia se tratasse, desaparafusou a tampa traseira e lá enfiou as manápulas dentro, depois desta retirada. Pelo canto do olho continuava a verificar movimentos estranhos para tudo quanto era lugar que estabelecesse comunicação com o exterior.
   Aquilo não estava a acontecer comigo, o meu filme era outro que não aquele. Ricardo aproximava-se com um pequeno volume castanho na mão e, eu já sabia o que era mesmo antes dele m’o mostrar e dizer tranquilamente:
   - Inspector Pedro Pires, o senhor está feito num molho de brócolos...
   - Não estou, não – retorqui com toda a segurança que consegui reunir – ora vamos lá ver se estou.
   Então, é que foi o bom e o bonito. A debandada foi geral, pois que saquei do meu Astra 9 mm. e ...
   ... PUM, ouviu-se um estampido, estoirei os cornos...


   Já com a alma no outro mundo, mas o corpo na terra ainda ouvi o comentário do meu ex colega Matos:
   Com mil demónios, que foi que deu neste lunático?
  13


   A resposta não se fez esperar pela boca do inspector Ricardo.
   - Se querem saber, eu ainda estava convencido que esse jornalista era o criminoso, e eu apenas ia perguntar ao nosso defunto colega, como é que esse chantagista e reles ladrão, estava na posse da carteira dele. Sim, a coberto da sua profissão de jornalista esse fulano era um mânfio, mas muito pior era esse gajo, esse Pedro Pires, matou seis mulheres para disfarçar o crime da última, só o descobri no último segundo...
   ...  A última mulher era a sua ex-esposa.

 

 

 

 

 

                             14
              
O MISTÉRIO DA ESTRELA SIRIÚS

   O carro corria veloz naquelas estradas. Mentira, corria não é a verdade, o carro voava, isso sim, galgava distâncias qual bólide de fórmula 3000 e, ainda que o “chaço” se estivesse a comportar à altura dos acontecimentos, diga-se em abono da verdade, que o condutor estava a proceder como se de um ás do volante se tratasse.
   Se tinha dias em que de manhã cedo, era impossível pela tarde conduzir à noite, pois que acertava sempre na maior parte dos buracos que já faziam parte da ornamentação do asfalto, prendas que todos os dias a J.A.E. oferecia aos condutores mais desprevenidos, ( os carros, principalmente as suspensões e os corpos, em geral os costados e a cabeça ressentiam-se disso, o que as oficinas de reparações auto agradeciam, resta saber se existe algum acordo entre estas e o organismo das estradas), hoje era uma excepção. Até das tampas de esgoto que ficavam mais altas que o asfalto e, que nunca se sabia onde as podia encontrar, carro e condutor conseguiram desviar-se delas.
   Talvez que hoje não fosse um dia normal, eu explico e ao mesmo tempo apresento-me.
   Ao dizer que o dia não é normal, quero referir-me a muito simplesmente que não encontrei os muito leais colegas do Trânsito durante esta louca correria, ainda por cima mais de três quartos dela feita dentro da cidade, o que indiciava que sempre é preferível passar multas a automóveis estacionados do que vê-los passar. Quanto a apresentar-me isso já fia mais fino. Não sou nenhuma vedeta da rádio, televisão ou cinema, não fiz parte dos B. B. nem do Masterplan, não andei na boca
                        15


do mundo por causa das academias nem tão pouco fui convidado para cimeiras...
   Sou simplesmente uma pessoa igual a milhões de tantas outras. Uns tratam-me por Rick ou Ricky, outros, os inimigos da lei, os malandrins tratam-me por inspector Ricardo. Nem bom nem mau, dá para ir resolvendo uns casos sempre a contento do “Chefão”, e sem que me sinta defraudar o erário público. Não julgue o leitor com isso que me estou a queixar, isso não. Bem sei que um “Pinkerton” ganha mais com um só caso resolvido, do que aquilo que nós ganhamos num ano, mas enfim, saberão que nós nem sequer as despesas de uma sandes de fiambre podemos debitar ao público pagante.
   Talvez, se fosse um canalizador, um sapateiro ou mesmo um médico ganhasse mais, nunca se sabe, o pior, o pior é que escolhi mesmo esta vida de investigação. Posso dizer que não desgosto, tem o seu quê de fascinante, apesar de não poucas vezes sentir que todas as tripas se revoltam, como se estalasse uma revolução no centro do estômago. E de uma coisa tenho a certeza, mesmo mal pagos fazemos o que nos compete dando de nós o melhor, sem olhar a esforços.
   É por esse motivo que o “chaço”, (desgraçado já com mais de vinte anos) está quase todo escavacado, e eu dirijo-me ao encontro de uns fulanos que até hoje desconhecia a existência deles, apesar de no meu gabinete existir um ficheiro bastante actualizado, com um sem número de figuras proeminentes, outras nem tanto, que nem sonham que esse arquivo existe. Só um número muito reduzido de pessoal da Central conhece a existência desses registos.
   Não havia muito tempo atrás, talvez vinte minutos, trinta no  máximo, encontrava-me no  meu  gabinete que se situa no        
        16


primeiro andar do “Edifício”, como é uso e costume entre nós, chamar-mos à Central, bem sossegadinho, a secretária já limpa, pronta para a entrada dos homens do turno seguinte, fumando o meu último cigarro ali; fumava pouco quando nada tinha para fazer, mas ao longo das investigações era capaz de “comer” cigarros a atrás de cigarros. Olhava o relógio e pensava que os últimos cinco minutos levavam bastante mais a passar que as restantes horas de permanência entre as quatro paredes, com mais vontade de adiantar os ponteiros e olear os sapatos, pronto para partir até casa. O turno nos últimos meses, devido a falta de pessoal havia sido mudado para oito horas cada um. Inclusive haviam trocado as voltas a muitos colegas, mais que colegas, amigos, e assim alguns desconhecidos vieram parar ao meu turno, levando-me a grande parte de bons investigadores e verdadeiros amigos para outros turnos.
   O “Chefão” entrou sem bater, faltava precisamente um minuto para dar corda nas sapatilhas. Além de interromper o silêncio que pairava no primeiro piso com as suas botifarras monumentais, quando tal figura se dignava a descer do seu pedestal, então alguma coisa no seu maquinismo eficiente precisava de ser movimentado com maior velocidade e mais precisão. Era já sorte a mais, o ter durante oito horas de serviço, apenas atendido um telefonema de uma velhota que julgara estar a falar com os bombeiros. A sua gata de estimação fugira para cima de uma árvore. Levei mais de trinta minutos para explicar que ali não existia escadas Magirus, recebendo no final um convite para almoçar no dia seguinte. Não me perguntem qual a intenção, porque fingi que a linha caiu...          
                17

   
   Também, diga-se em abono da verdade, que não era preciso o “Chefão” bater, fosse em que porta fosse, o som matraqueado que se produzia à sua passagem, indicava que o figurão se estava a aproximar. Levantei os olhos para a sua imponente figura e, sem quaisquer palavras atirou um maço de papeis para cima da secretária. Notei serem rascunhadas pelo meu colega e amigo Matos, destacado para outro turno agora, quando devia estar no meu. Era-mos como uma equipa, nunca o Rock & Amiga, mas talvez um Maigret e os seus fieis inspectores Lucas e Janvier. De certo modo as equipas continuavam, dispersas evidentemente, mas continuavam. Ali estava a caligrafia do inspector Matos, não era preciso que o “Chefão” me elucidasse, nem o fez. Apenas abriu a boca duas vezes.
   - A morada está no último rascunho – tonitroou – o seu amigo Matos tem algumas dúvidas, eu tenho muitas. Foi ele o primeiro inspector a visitar o local. Quero que o senhor se encarregue do caso.
   Despediu-se com um sorriso garoto nos lábios, depois deste breve monólogo, não sem antes me atirar:
   - Rick, sei que vais gostar, além da investigação ainda te vais divertir, sei disso porque conheço o teu interesse pelo esoterismo. Agora mexe as pernas, ala que se faz tarde.
   Esbocei também um pálido sorriso, se é que se pode chamar sorriso a uma careta e, despejei-lhe sarcástico:
   - Temos um novo Triângulo em Portugal, ou avistámos um grupo de OVNIS ( O vinho não induca, satisfaz, organização clandestina que fabricava vinho a martelo só para consumo pessoal), na serra da Arrábida?.
   Saí do gabinete figurada e literalmente voando, não  queria
              18


ficar com marcas nos fundos das costas, e o homem era bem  capaz de alçar a perna com agilidade, apesar da sua idade e do seu corpanzil. Dois poderosos motivos levavam-me a pensar que quanto mais depressa estabelecesse contacto com tão estranhas criaturas, mais depressa estaria despachado.
   O primeiro deles, a renúncia à minha “loirinha” pós-laboral, o segundo e o mais forte, o jantar especial com a minha mais-que-tudo. A cara-metade esforçara-se por preparar uma delícia da sua terra, especialidade do Rio Grande do Sul. Estava prometido desde há muito tempo, e agora se por um acaso dos diabos as coisas não fossem facilitadas, era uma vez um jantar. Com toda a certeza Mara compreendia que se tratava de trabalho, mas ... da cabeça partida não me livrava.
   Felizmente que não levei muito tempo a percorrer os quilómetros que me levaram ao lugarejo assinalado pelo “Chefão”. Localizada a vivenda estacionei uns bons duzentos metros antes, era como se tivesse dado entrada noutra dimensão. Exclamei baixinho:
   - Porra!, com mil diabos, o gajo tinha razão...
   Não que descortinasse por ali algum dos diabos que saiam das minhas exclamações, ou que avistasse um “Gremlim” qualquer ou até mesmo um extraterreste em segunda mão, nada disso. O que eu ali observava era como se estivesse na grande Londres durante a Segunda Grande Guerra, logo após um bombardeamento dos boches. A vivenda que procurava erguia-se imponente e solitária num bairro que outrora fora residencial, construído nos anos longínquos de trinta ou quarenta e que agora se encontrava reduzido a mera meia dúzia de casarões ainda intactos, predominantes sobre uma paisagem assustadoramente reduzida a  escombros.  Ao menos
                   19
                 
um bom “parque de estacionamento” existia por aquelas bandas. Na verdade se em toda a cidade era e é mais fácil encontrar uma agulha num palheiro, que encontrar um local para estacionar, mesmo com os vários “relógios humanos” vulgarmente designados arrumadores ou moedinhas, que a Câmara e a polícia não controlam, ou com os caça-moedas controlados por entidades governamentais, no local onde me encontrava existia terreno para albergar metade das viaturas da cidade e um quarto dos camiões de grande tonelagem. E por ali até se viam muitos da categoria destes últimos, sobretudo de transporte de veículos e de contentores.
   Nem vivalma se encontrava por aquelas bandas ou arredores, o vento suave apenas trazia o ruído de um jogo de futebol tendo como intervenientes decerto a miudagem, lá muito distante. O mais provável era que todas as casas ainda que habitadas, esperassem o aparecimento do camartelo. Um dia, num futuro não muito longínquo, erguer-se-iam ali uns fabulosos condomínios fechados, com direito a todos os luxos e mais alguns, conforme apregoava a propaganda da construtora que ganhara o concurso para construir naquela zona da cidade.
   Tinha por missão visitar a casa em cujo portal encontrava-me agora e, quanto mais depressa melhor... não me pagavam para andar a divagar. Se não queria, nem devia perder o meu apetitoso jantar, o melhor era começar com o questionário o quanto antes. O “Chefão” fora preciso nesse aspecto:
   - « ... Só terás guia de marcha, após o relatório feito...».        
   O crime da última noite carecia de ser esclarecido, esse é o objectivo de todo e qualquer agente da lei, em particular agora   o meu, porque era eu que ali me encontrava. Não  era
                   20


difícil de imaginar porque o meu colega e amigo Matos optara pela palavra crime e não por outra qualquer como acidente ou suicídio. Decerto que se lhe justificara classificar assim por um qualquer pormenor que se fixara nas suas células cinzentas. O problema agora estava nas minhas mãos, solucioná-lo dependia apenas do tempo.
   A calmaria e o calor não eram nem um pouco beliscados pelo vento brando que se levantara. O sol ainda ia alto e já suava estopinhas, ali parado a tocar a sineta. Como levava no bolso as notas rascunhadas pelo Matos e entregues pelo “Chefão” decidi que, enquanto esperava que me atendessem e abrissem o raio da porta, devia dar-lhes uma vista de olhos. Pela terceira vez consecutiva dava ao badalo e, já com desespero pensava que a companhia das luzes se dedicara a fabricar apagões de duração indeterminável naquela zona. Com uma das mãos ocupada simultaneamente com os papeis e a campainha, levei a outra ao bolso. Fiquei decepcionado e ligeiramente irritado. Os cigarros ficaram no carro. Olhei o papel e li algumas passagens.
   « ... Na casa era suposto viver uma pseudo-seita, que numa miscelânea incompreensível para qualquer profano, misturava astrologia, dactilomancia, quiromancia e outros quejandos terminados em “mancia” e “gia” com religião.»
   Estava familiarizado com tudo isso, não porque fosse adepto fervoroso dos assuntos em epígrafe, já que sou como aquele que diz que não acredita em bruxas, mas que elas existem, lá isso existem, mas muito simplesmente porque era um diletante de tudo o que dissesse respeito às origens do Universo e arrabaldes e, consequentemente com os primórdios da  civilização dita terrestre incluindo as suas lendas,  mitos,
                   21


crendices e superstições. Tinha conhecimento também, apesar de muito ténue, de todas as aparições de homenzinhos verdes ou azuis, em vários locais assim como dos desaparecimentos misteriosos de navios e aviões em diversos pontos do globo. Dava algumas lições sobre as pirâmides, especialmente Incas e gostava de falar sobre a civilização Maia e sobretudo da fantástica ilha de Páscoa.
   Ia gostar da investigação, nem mais... Continuei a leitura.     
   « A vítima, guia espiritual ou guru da seita como gostava de ser tratado, de seu nome verdadeiro Tomás Ribeiro, usava enquanto líder o nome de professor Charlton... »
   Não consegui esconder um sorriso, imaginando se o homem não seria mesmo isso. Um displicente charlatão.
   « ... Perto da meia noite o professor fora encontrado por três dos seus mais fieis seguidores e alunos, num  banho de sangue, pura e simplesmente degolado. Regina Scorpius, Juvenal Gemini e Horácio Taurus também residentes ali na vivenda, eram estes os nomes dos alunos...»
   - Por onde andavam os Leo, Sagitarius, Cancer, etc. faltosos?, pensava eu já saturado de estar ali a tocar. Não era para menos, depois de mais de uma dúzia de sonoras campainhadas e de outras tantas lambidelas de beiços a pensar na “loirinha” fresquinha, cigarros e janta debaixo daquele sol, era de dar em doido. 
   Por fim apareceu um vulto na porta entreaberta. Foi por um triz, já que ia fazer a última tentativa.
   - Boa tarde – gritei, apresentando-me de seguida – sou o inspector Ricardo, investigo a morte do professor.
   O jovem, talvez vinte e cinco, vinte e seis anos, franqueou a porta sem tugir nem mugir. Faces ossuda, muito osso pouca
             22


carne, nem um cão escanifrado aproveitava algo dali, davam-lhe um aspecto bastante mais velho do que na realidade tinha. Rememorando os apontamentos, reconheci naquela figura esquelética Horácio Taurus. Nada tinha do antigo Horácio, poeta excelente, ou do outro cognominado Cocles. Inquiri se podia conduzir-me ao quarto do professor. Enquanto caminhava perguntava-me mentalmente se todos os Piscis e Libras da seita eram idênticos ao Taurus.       
   O quarto pertencente ao professor Charlton tinha como mobiliário uma cama, um roupeiro com duas ou três peças de roupa, um pequeno sofá onde se presumia que passasse as horas de leitura, uma secretária onde assentava uma pequena estante, esta última repleta de livros e uma cadeira. Memorizei tudo isso e como estava disposta a mobília e também que o professor destoava dos Áries, Virgos e Capricórnius, no nome claro está.
   Em cima da secretária, cujo tampo tinha absorvido o sangue, mas cujas manchas se notavam perfeitamente, notava-se uma carta do Zodíaco, também esta coberta aqui e ali por pequenas manchas acastanhadas.
   - Este nunca mais faz horóscopos, será que o “Charlatão” previu a sua morte nesta carta astral – deixei escapar.
   Taurus olhou-me furibundo, não lhe liguei pevide, apenas esbocei um olhar sonolento.
   Deitei uma mirada pelas paredes, cobertas com vários quadros que, como não podia deixar de ser, invariavelmente aludiam a astrologia e quiromancia. Alguns, muito poucos, abstractos que, com um pouco de imaginação, dependendo de quem os via, se poderiam de denominar “O fim do mundo” ou ainda  “ Descida ao inferno”. Para isso era preciso ser mesmo
              23


muito bem intencionado e ver neles o que quer que fosse por muito subjectivo que lá estivesse. Andei de gatas, dei espreitadelas por detrás da estante e dos quadros, abri bem os olhos debaixo dos móveis, afastei o sofá, espreitei debaixo da cama, arrastei a cadeira, tendo todo o cuidado para depois retornar a colocar tudo nos devidos lugares, não deixei escapar nada. Bem, só faltou-me a coragem para desenroscar as lâmpadas e tirar as portas dos gonzos ou levantar o madeiramento do soalho. Estou seriamente convicto que nem Poirot nem o celebérrimo Holmes fariam melhor do que eu fiz. Creio que com esta minha atitude não fiz mais que arrancar uns largos sorrisos sardónicos ao cara de pau que estava encostado na ombreira da porta.
   Avisei-o muito delicadamente, isto é, com um safanão que o jogou para o outro lado do corredor, para se afastar. Não fosse dar-se o caso de destruir algum vestígio importante. Fiz-lhe uma pergunta simples.
   - Tem por acaso alguma “loirinha” fresquinha?.
   Não havia razão nenhuma nem qualquer impedimento para que uma fresquinha escorregasse pela garganta. E se neste momento estava sequinho, acima de tudo sem o cigarro...
   A resposta não se fez esperar, perdi uma bela oportunidade de ficar calado.
   - Loura não!. Ruiva e bem ruiva, uma ruiva completa com as sardas e tudo, e a Regininha é demasiado séria para o senhor “intendente” se expressar assim dessa maneira...
   Desisti de formular a pergunta que teimava em pairar na minha mente. Isso implicava gastar saliva com quem não a merecia. Retrocedi até onde tinha estado anteriormente, podendo  constatar apenas a limpeza impecável  e   imaculada
              24
      

que reinava naqueles aposentos, afora as manchas de sangue e a confusão na secretária, já que não havia sido dada a ordem de remoção daquelas coisas e, que nada mais de estranho por ali se encontrava. Essas e outras que não vinham agora ao caso eram as minhas convicções de momento. Recordei mais algumas passagens das anotações do meu colega e amigo Matos.
   « ... Todos os quartos são idênticos, variando apenas alguns temas dos quadros expostos nas paredes e alguns dos livros arrumados nas estantes. As camas encontram-se todas  meticulosamente enfileiradas segundo o que parece ser o eixo norte-sul geográfico, ficando a cabeceira das mesmas sempre virada para norte. Ao fundo, no lado oposto à cabeceira encontra-se a secretária. Na parede voltada a leste, o sofá.»
   Estranho ritual.
   « A vítima, muito provavelmente terá sido apanhada por trás, não querendo dizer com isso que pertença ao clube dos amélias, mas aqui só o nosso legista pode informar se existe violação ou não. O trabalho foi perfeito, um corte muito rápido nas carótidas deixou-o sem o precioso líquido vital que faz trabalhar todo o maquinismo interior. Tombado sobre a secretária, com o braço direito esticado sobre o tampo e, como que fazendo um triângulo equilátero, o outro braço. Este estendia-se para a frente, conforme quem seguir estas notas pode comprovar através do desenho a giz, tocando num dos livros da primeira fila da estante que pousava sobre a secretária.»
   Relanceei os olhos e topei o livro, tratava-se nem mais das famosas “Profecias de Nostradamus”, ou mais precisamente as célebres  “Centúrias”. Já o tinha lido e relido e quase  sempre
              25


dava por mim a matutar na extraordinária quadra da qual me lembrava – e quando o leão acordar, toda a terra tremerá – sem no entanto vislumbrar o alcance dela. Outro dos motivos que me fazia sempre recordar o dito livro era o anacrónico ditado – quem empresta não melhora.
   « Do lado esquerdo de uma janela, está pendente uma corda, amarrada a uma das pernas da cama com o característico nó de forca, terminando a cerca de um metro, metro e pouco do pátio que defronta o que antes foi um belo jardim.»
   Pouco mais havia para ler, o resto agora era comigo, estava entregue à bicharada, convinha resolver as coisas antes do jantar. Olhei em redor apenas para justificar as afirmações de Matos. Lá estava o livro de Nostradamus, quem sabe depois de terminadas as investigações o conseguiria escamotear.
   Ah! Dirão os Leitores, temos um inspector malandro, mas não fiquem assim tão surpreendidos. Certo, certinho foram as quatro edições que comprei das “Profecias” terem levantado asas, voaram literalmente da minha estante. Todas elas sem excepção levaram sumiço, eclipsaram-se pura e simplesmente ou tornaram-se invisíveis aos meus olhos depois de amigos as terem pedido emprestado cá ao Rick. Assim a próxima, comprada, emprestadada ou meramente surripiada será em cada folha, registada com o meu nome com tinta simpática.
   A cama encontrava-se perfeitamente alinhada e arrumada, o sangue seco que tinha notado logo de início junto com os riscos a giz também lá se encontravam na secretária. Tudo confirmava o quadro feito pelo Matos.
   - Já alguém entrou ou mexeu neste quarto hoje – perguntei
              26

de chofre ao cara de cão famélico.
   - Não, desde os acontecimentos da noite passada, só nós entrámos aqui – falou com uma voz de donzela assustada – mais ninguém aqui pôs os pés.
   Algures no canto mais afastado das minhas cinzentas uma luz iluminou a escuridão, mas a falta dos cigarros embotava-me de momento os sentidos, no entanto e como precisava de satisfazer a minha curiosidade natural pedi ao jovem Horácio que me descrevesse todos os seus passos, sem os precisar de contar numericamente, na última noite e os aposentos em que tivesse entrado.
   - Senhor, ontem, assim como durante esta semana, foi o meu dia de arrumar a cozinha – começou com a voz de gaita de foles – claro que como e óbvio e o senhor já deve ter reparado não temos nenhuma dessas modernices que fazem o trabalho por nós. Tudo é feito como se estivéssemos ainda no século dezoito, ou como lhe aprouver melhor, manualmente. Claro está, muito naturalmente também não temos criadas para todo o serviço, nem sequer para nenhum serviço, assim sendo todas as semanas e rotativamente, por acordo mútuo um de nós fica encarregue de tudo o que diga respeito aos indispensáveis afazeres domésticos. Como deve calcular o inestimável guru ficava de fora deste trato. Os quartos também não estão estipulados no contrato, pois estes são única e exclusivamente da pertença e responsabilidade dos seus ocupantes, excepção feita aos aposentos do Professor que também exige a rotatividade de nós. Pela razão de ficar a lavar e a arrumar a loiça do repasto, aqui jantamos cedo, essa é uma das normas, recolhi aos meus aposentos mais tarde que o habitual, o que sempre se justifica. Seriam talvez
                   27


dez horas, pouco mais ou menos.
   Assenti com movimentos de cabeça, assimilando tudo num dos cantinhos do cérebro preparado para esse efeito, enquanto caminhava atrás de Taurus até à majestosa cozinha, isto é, enorme porque de maravilhosa não tinha mesmo nada. Tal como o dito cujo explicara pouco antes, esta encontrava-se totalmente despida daquelas pequenas maravilhas que tanto encantam as donas de casa, deixando-as com mais tempo e menos dinheiro para pensarem na protecção e embelezamento das unhas e mãos.         
   Apenas a um canto um velho e desconjuntado frigorífico roncava. Não destoava de todo do ambiente. Abri-o na esperança de encontrar ali uma fresca e espumosa “loirinha”, mas qual quê, muitas verduras, tomates e outros vegetais por ali proliferavam. Decepcionado fechei a porta do “fazedor de frio” já que este apenas continha o encontrado acima, além de outros produtos alimentares que necessitavam de uma temperatura inferior à do meio ambiente, muita água... da “loirinha” nem o cheiro ...
   ... Sem cigarros, sem “loirinha”, estava feito ao bife. Tinha de apressar o interrogatório antes que me desse o badagaio por falta de combustível.
   - Como verifica senhor todas as tarefas são feitas manualmente, – interrompeu o jovem, o curso dos meus pensamentos – pelo que por maior que seja a velocidade que se queira imprimir para despachar as coisas, sempre se leva algum tempo desde o preparar dos pratos até ao secar da loiça.
   Não respondi, cogitava em tudo o que ouvira, lera das anotações  e observara até ao momento. Tudo junto dava  em
              28


nada, somente a tal luzinha... se encontrasse o significado. Entretanto seguira o jovem Horácio cara de pau Taurus até aos seus aposentos. Este era em tudo idêntico ao do seu guru. A cama alinhada no sentido norte-sul, a estante com a sua moxurunfada de livros, a maioria deles versando astrologia. Lá estava em primeiro plano um Nostradamus, lado a lado com “Ritos estranhos do mundo”, “O vampirismo” e “Crónicas dos mundos paralelos”. Quase que me apetecia perguntar ao indivíduo na minha frente se os lera, mas fiquei-me pela intenção. O sofá, a secretária, a cadeira... Tudo na mesma ordem e perfeição, não fosse faltar ali algo que jurava estar noutro quarto, pela minha fé diria que estava nos aposentos do professor Charlton.
   A casa sem dúvida nenhuma, fora uma óptima escolha do pretenso guru para o começo e florescimento de uma nova seita, preenchia curiosamente todos os requisitos necessários a extravagantes e bizarros ideais que adviessem de mentes tão “brilhantes”.
   Um dia não muito distante, havia de me lembrar de tal coisa, não era nada mau ser o “pastor” de um grandioso “rebanho”, não pagava impostos e ainda recebia as oferendas. Sabia de um que tinha jacto privativo e tudo.
   Pelo que já observara dos dois quartos o alinhamento segundo a direcção em que estavam faziam parte dos preceitos seguidos pela seita. Horácio falou novamente.
   - Depois de terminadas as minhas tarefas, vim para aqui estudar. Estava resolvido a terminar o estudo da carta astral do meu fiel guru e mestre Siriús...                          
   Como se ficasse a olhar para o meu interlocutor com uma cara de parvo este depressa concluiu:
              29


   - Desculpe-me senhor, efectivamente não sei se o senhor sabe, o professor chamava-se Tomás Ribeiro, mas tornou-se mundialmente famoso, aqui e nos arredores com o nome de professor Siriús. Desconhecemos o motivo, mas desde há aproximadamente cinco a seis semanas mudou o nome para professor Charlton. Até que ontem descobri a razão, ou penso tê-la descoberto. Faz parte desse estudo, dê uma olhada senhor, não tenha medo que não irá pegar doença alguma. Aqui está senhor, o que vi assustou-me imenso, acho até, tenho a certeza neste momento de que a morte rondava o Professor e ele sabia-o. A complexa conjunção destes planetas – e com gestos firmes apontava o mapa celeste, cheio de constelações estelares e zodiacais, quadrados, triângulos e outras figuras geométricas – com a estrela Siriús, aquela além, bem visível na noite de ontem, em conjuntura com a lua nova, eram sem dúvida para mim um prenúncio de morte. É claro que pensei, cogitei, conjecturei muito sobre qual a melhor atitude a tomar, tudo isto me levou demasiado tempo, digo isto pelos resultados. Finalmente quando me decidi avisar o meu estimado mestre, dei corda nos sapatos e ala que se faz tarde levado pelos bafos da noite. Fui até ao quarto do Professor, bati por duas vezes na porta, ao fazê-lo uma terceira comentei com os meus botões que a coisa já era anormal...
   - Que horas eram? – interrompi.
   - Talvez uns minutos para a meia-noite, poucos minutos, dez ou coisa assim – respondeu e continuou a sua lengalenga – achei que era anormal porque logo após a primeira batida mandava-nos entrar. Notei que a porta não se encontrava fechada, nem mesmo no trinco da porta como seria de esperar
              30
em pessoa demasiado meticulosa como era o Professor. Abriu-se após uma ligeira pressão e a primeira coisa com que deparei quando abarquei os aposentos com o olhar foi o vulto do guru caído sobre a secretária. Fiquei, como deve calcular, algum tempo paralisado, pareceram-me muitos minutos, mas sei que não se passaram mais que breves segundos. Tenho uma vaga impressão de que gritei, um autêntico alarido, não o posso afirmar com convicção, o que posso dizer é que ao assentar os pés na terra, tinha os meus condiscípulos rodeando a minha triste figura, resolvemos então chamar a polícia, eu não fui, disso tenho a certeza. Fiquei demasiado perturbado pelo rumo dos acontecimentos e por ter visto depois aquele sangue todo, nem sequer voltei aos estudos e, tudo neste quarto, inclusive tudo o que se encontra na secretária está exactamente como quando ontem o abandonei.
   - Chegou a dormir aqui – perguntei ensimesmado.
   - Não, - respondeu o jovem sem hesitação – de facto ainda nem sequer preguei olho, ando por aqui e por ali, fazendo os possíveis por não adormecer.
   Estava prestes a fazer um comentário irónico acerca dos mapas astrais, já que gostava de ver o “Céu do mês” num jornal nacional e, aquele era em tudo igual, mas abstive-me. Apenas retorqui com mais uma pergunta que me parecia ser muito oportuna.
   - As portas da casa são fechadas à chave durante a noite, ou ficam apenas no trinco?.
   - São sim senhor, todas elas salvo excepções – confirmou Taurus, continuando após uma pausa – na minha qualidade de iniciado-mor adquiri a honra e o privi

© Copyright 2014Ricardoma All rights reserved. Ricardoma has granted theNextBigWriter, LLC non-exclusive rights to display this work on Booksie.com.

© 2014 Booksie | All rights reserved.