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Perfil de alguém com muitas histórias para contar.


Submitted:Feb 27, 2013    Reads: 9    Comments: 0    Likes: 0   


Antes de se ver o homem, vê-se o fumo. Antes de se ver o fumo, sente-se o cheiro das castanhas que estão a ser assadas. À medida que nos aproximamos, começa a tornar-se mais nítida a imagem anteriormente esfumaçada de quem está atrás do fogareiro. O homem relativamente baixo, atarracado devido à idade, cansado devido ao trabalho de quase sessenta anos.

Quem passa pela Praça oito de Maio vê Fernando Pereira a vender castanhas. Com as mãos negras de cinza, cumprimenta com um sorriso as pessoas que passam pela banca. Quem passa não vê mais do que o sorriso. Passam apressados, cumprimentam por boa-educação, pedem uma dúzia de castanhas, pagam o valor correspondente, agradecem e afastam-se. Na despedida recebem o mesmo sorriso que no cumprimento.

Nunca vêem mais do que o sorriso. Nunca poderiam imaginar os lugares onde Fernando já exerceu a sua actividade. Já percorreu o país. Já dele saiu. Começou pelo Porto. Foi lá que com dez anos, por conta de outrem, começou a vender. Não tinha dinheiro, mas não queria ficar ali. Trabalhou durante um ano, juntou o dinheiro que precisava e com onze anos foi para Lisboa.

De olhos fixos no horizonte inspirou e concentrou-se, como se o que fosse contar a seguir fosse difícil ou comprometedor e no mesmo tom simpático e bem-humorado com que sempre fala disse "podia contar-lhe cada história sobre a venda das castanhas… Olhe que até já estive escondido debaixo das saias de uma mulher!"

Foi na cidade de Lisboa, quando tinha onze anos, que se deu a situação mais caricata que se lembra da sua vida profissional e, com ajuda da sua esposa que actualmente, em Coimbra, com ele trabalha, explicou-ma.

"Foi em Lisboa", começou, sendo imediatamente interrompido por Maria (a sua esposa) que continuou a descrição do cómico momento "Ele era pequenito… A polícia andava atrás dos vendedores, não era? E ele, coitadito, devia parecer assustado e desorientado então uma varina disse-lhe «ó miudito vem aqui. Põe-te debaixo da minha saia.»". A polícia apareceu a perguntar por um miúdo que andava ali nas redondezas a vender castanhas e a senhora que o tinha escondido respondeu-lhes "não, eu não sei de nada. Não vi miúdo nenhum", enquanto o senhor Fernando, com onze anos, se escondia sob as suas saias. Depois da descrição que a esposa me fez enquanto ele vendia algumas dúzias de castanhas (sempre com o ouvido atento ao que me estava a ser dito), o senhor Fernando ainda me explicou que a situação se deu no Terreiro do Paço, mas que andava sempre de um lado para o outro. Muitas vezes estava em Lisboa de manhã, depois apanhava o barco, ia para Almada e ao final do dia, muitas vezes, fazia o caminho inverso.

Esteve também na Guiné. Foi vender castanhas para o hospital militar por volta de 1967, dois anos depois de ter ido à tropa. Deram-lhe autorização para assar lá as castanhas e ele assim fez, normalmente sempre para os mesmos duzentos homens com quem costumava conviver.

De volta a Coimbra, alegra-o o facto de ver que, apesar da actividade que exerce tender a desaparecer, existem pessoas, sobretudo os estrangeiros (espanhóis, franceses, ingleses e italianos, na sua maioria) admiram a forma como faz o seu trabalho. No seu país de origem as castanhas assadas na rua ficam "todas pretas" (como explicou o senhor Fernando) e eles conseguem dar-lhes um tom tostado, mais acastanhado com algumas zonas mais cinzentas devido à cinza. Sempre com melhor aspecto do que aquelas a que se habituaram no seu país de origem.

Enquanto conversávamos passou um indivíduo, a pouco mais de três metros do lugar em que nos encontrávamos que olhava curioso para o senhor que assava as castanhas. Olhou também para elas, dir-se-ia que para comprar uma dúzia mas acabou por passar ao lado, olhar para Fernando Pereira com reconhecimento no olhar, assentir com a cabeça em forma de cumprimento e seguir o seu caminho. A maioria das pessoas, se não tiver vontade de comprar castanhas nem sequer repara na pessoa que as está a assar, sempre de sorriso nos lábios, cinza nas mãos, envolto em fumo. Quem por ali passa, antes de ver o homem, vê o fumo. Ninguém imagina as histórias que aquele fumo, se falasse, teria para contar.





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