E o mar foi-se embora

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Status: Finished  |  Genre: Children Stories  |  House: Booksie Classic
The sea asks for the help of a boy to send a message to the humankind.

Submitted: September 16, 2016

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Submitted: September 16, 2016

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E o mar foi-se embora.

Desde que ele se lembrava que João ia para aquela praia surfar. Ali estava ele sentado na sua prancha, à espera que o mar lhe oferecesse uma daquelas ondas que já tantas vezes tinham partilhado. Mas hoje o seu companheiro azul estava muito calmo. João não se importava. Sempre que isso acontecia, aproveitava para pensar, para meditar, embalado pelo ritmo da maré. Estava ele entregue a esta moleza, quando ouviu:

- Olá João.

Sobressaltado abriu os olhos e olhando em todas as direções procurou quem com ele falava.

-Aqui em baixo, eu estou aqui em baixo.

 Olhou então para água e naquilo que viu não podia acreditar. Uma velha tartaruga boiava ao seu lado, e com olhos meigos para ele olhava.

- Foste tu que me chamaste? Mas isso não é possível. Devo ter adormecido e estou a sonhar.

- Assim é. – Respondeu o velho animal – Falo-te desta forma pois só assim é que nos podemos entender, mas aquilo que me pediram para te dizer é de grande importância, por isso peço-te que me escutes.

- E quem te fez tal pedido” – Perguntou o incrédulo rapaz.

- O mar.

- O mar? – Repetiu João, olhando a imensidão azul que o rodeava. – Mas o mar fala? Como é que isso pode ser?

- Não só fala, como vê e sente. Nós já te conhecemos há muito tempo e sabemos o respeito e a estima que tens por nós. Foi por isso que foste escolhido.

- Escolhido? Mas para quê?

- Para levares uma mensagem aos teus.

João já não sabia o que o espantava mais, o estar a falar com uma tartaruga num sonho, ou o facto de estar a acreditar em tudo aquilo.

- E que mensagem é essa?

- Vão ter de parar agora.

- Mas parar, parar com o quê?

- Com lixo que depositam no fundo dos oceanos, com a pesca sem se preocuparem com a sobrevivência das espécies, com o petróleo com que mancham as águas. É isso que o mar quer que digas aos teus governantes.

- Mas eu não sou ninguém. Sou um simples surfista que gosta do mar e da natureza, nada mais. Ninguém me escutaria.

-Essas são as razões que fazem de ti a pessoa certa. E se tu podes perder um pouco do teu tempo para escutar uma velha tartaruga, tenho a certeza que os teus também te ouvirão.

- E o que acontecerá se a minha gente não parar?

- O mar vai-se embora.

- O mar vai-se embora? Mas isso é impossível. Como é que oceanos inteiros podem desaparecer?

- O mar nem sempre aqui esteve, e ele ainda se lembra de onde veio e do caminho para lá chegar. Por isso pedimos-te que tentes. Farás isso?

 – Sim, vou tentar. - No fundo ele sempre soube que este dia chegaria.

João acordou. Ainda meio confuso nadou para a praia, e, já na areia olhou para trás ainda tempo de ver uma carapaça desaparecer nas profundezas.

No dia seguinte foi até ao local onde os homens poderosos se reúnem para definirem as suas estratégias económicas, financeiras e politicas e pediu para com eles falar. Muito a custo lá conseguiu que o ouvissem:

- Então rapaz, o que te trouxe aqui para fazer perder o nosso tempo?

-Tenho uma mensagem para os senhores.

-Uma mensagem! Mas uma mensagem de quem

- Do mar.

Ouviu-se uma gargalhada geral.

-Ai sim! E o que é que ele tem para nos dizer?

- Quer que parem de poluir os oceanos e de matar os seus habitantes.

- Estou a ver, estou a ver. E se o fizéssemos como é que continuaríamos a ganhar dinheiro e poder, sabes dizer-me?

- Não senhor. Pediram-me apenas para vos fazer chegar este aviso.

- Aviso? E se por acaso não o fizermos, o que é que acontecerá então?

- Ele vai-se embora.

E de novo toda a sala achou imensa piada.

 - Sai daqui e não nos aborreças mais com patetices!

Triste, João saiu e regressou à sua praia. Lá longe a tartaruga aguardava a resposta. Os seus olhos falaram por ele. Percebendo que nada mudaria, o velho animal voltou ao fundo do oceano e João a sua casa.

Na manhã seguinte quando chegou à praia, João encontrou aquilo que mais temia. No lugar onde sempre esteve o oceano, nada. Nem água, nem peixes, nem algas, nem a mais pequena concha que provasse que ele alguma vez tivesse existido. Diante dos seus olhos estava um imenso deserto. Areia até onde a vista atingia. Tinham sido avisados.

Quando chegou a casa ficou a saber pela televisão que o mesmo tinha acontecido por todo o planeta. O mar tinha mesmo ido embora. Os poderosos homens aprenderam a lição da pior maneira possível. Não tinham mais oceano nenhum para explorar. Apesar de triste, algo dentro de João o confortava. Era como se alguma coisa lhe dissesse que voltaria um dia a ver o imenso azul.

Muitos anos passaram, e nunca mais uma única gota de água salgada voltou as ser vista na superfície da Terra. João, agora velhinho, continuava a ir à sua praia, onde passava longas horas sentado, encostado à prancha espetada na areia. Foi precisamente assim que naquele dia ele…adormeceu.

- Olá.

Abrindo os olhos, viu que ao seu lado tinha a tartaruga

– Tu! Estarei a sonhar outra vez?

- Não João, desta vez não.

- Depois de tanto tempo, porque voltaste agora?

- O mar mandou-me vir buscar-te. Está na hora de te juntares a ele.

- Ele não vai voltar, pois não?

- Talvez um dia, quem sabe. Mas agora vamos, já esperaste tempo suficiente.

João pegou na sua prancha e lado a lado com a velha tartaruga caminhou sem saber para onde, sabia apenas que ia voltar a surfar com o seu amigo.

 

Fim


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