Uma noz

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Status: Finished  |  Genre: Children Stories  |  House: Booksie Classic
Um jovem Pé-grande começa a sentir-se interessado por uma família de humanos que se muda para a floresta.

A young Bigfoot begins to feel interested in a family of humans who moves to the forest.

Submitted: October 08, 2016

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Submitted: October 08, 2016

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Uma noz

Dezembro, numa floresta algures no Canadá.

Faltavam poucos dias para o Natal. O branco da neve tinha substituído o verde vivo que habitualmente vestia toda a redondeza.

O dia em que iam escolher a árvore tinha chegado. Aquela era sempre uma altura muito especial. Dava-se assim início à importante operação, onde toda a família participava.

Tinham-se mudado para o velho abrigo dos lenhadores fazia 5 anos. O pai, guarda-florestal, tinha sido para ali destacado. Quem não achou muito boa ideia de início foi a mãe. Ir morar para o meio da floresta, longe de tudo, especialmente com uma criança pequena, não a deixava muito descansada. A cidade mais próxima, onde o menino, agora com 11 anos ia escola, ficava a uma boa meia hora de carro. Mas aos poucos também ela acabaria por se apaixonar por aquele sítio. Era como se nunca tivesse sido tocado pelo Homem, como se mantivesse o seu estado mais puro.

A família era ainda composta pela filha mais nova, uma menina de quatro anos que entretanto tinha nascido e por um pequeno e irrequieto cachorro de pelo branco e laranja, que tinham encontrado, havia pouco tempo, perdido na estrada, numa das viagens de regresso a casa.

A dada altura ouviu-se alguém dizer…

– É aquela, pronto já escolhi!

O rapaz correu para junto de um jovem pinheiro, malhado de branco e verde. O resto da família aproximou-se também e depois de algum tempo a tentar convencer a pequenina de que o alce que tinham visto um pouco antes, não daria uma boa árvore de natal, a decisão foi tornada oficial.

O que seria de esperar que acontecesse de seguida, era que fosse roubada àquele pequeno ser, a possibilidade de se tornar um imponente pinheiro, só para fazer parte da decoração da sala de alguém. Puro engano, meus amigos puro engano. É que esta família tinha uma tradição muito própria. O pai, tal como todo o guarda-florestal que se preze, era contra o abate sem sentido de árvores. Para ele, todos os elementos da natureza, fossem eles animais ou plantas, eram importantes para manter o frágil equilíbrio do nosso planeta, e fez questão de passar aos seus filhos esta sabia lição. E assim, ao invés de ser cortada e arrastada para casa, a árvore permaneceu na floresta, o seu devido lugar. Ali voltariam, todos juntos, sempre que a quisessem ver.

Mas, com certeza que muitos de vocês dirão – “Uma árvore de Natal sem decorações! Que piada é que isso tem?” – Pois deixem que faça minhas as palavras deste senhor e que vos diga que dificilmente encontrarão enfeites mais bonitos do que os pássaros, a neve, o luar e o brilho das estrelas.

Feita que estava a escolha, adultos, crianças e cão regressaram à cabana, pois a noite já se aproximava, ouvindo-se de vez em quando durante o caminho…

- Eu ainda gostava mais do alce.

 

O Natal é uma época mágica, mas para esta família e especialmente para este rapazinho, havia ainda mais um motivo para que se sentisse ansioso pela chegada destes dias. É que todas as manhãs de 25 de dezembro, desde que ali tinham chegado, que uma noz, uma única e simples noz, era colocada à porta da sua casa. A mãe, inicialmente tinha justificado o sucedido com a distração de algum esquilo que por ali tinha passado. Essa explicação teria feito sentido, se o mesmo não se repetisse todos os anos. Descobriria ele alguma vez a identidade do autor de tão estranha oferta? Não o sabia, assim como também desconhecia que nunca iria esquecer aquele Natal.

De volta à cabana, encontramos os membros da família entregues às suas tarefas. As nuvens de fumo que saiam da grande chaminé, diziam que a mãe estava a preparar o jantar. O pai, por seu lado, encarregava-se de acender a lareira, pois as noites eram frias a sério. No chão, a menina desenhava com os seus lápis de cor algo se assemelhava bastante a um alce com enfeites de natal, ao mesmo tempo que o seu irmão lia pela décima vez “As aventuras de Tom Sawyer”.

De súbito, o pequeno cão ficou agitado. Dirigindo-se à porta da rua, saiu pela pequena abertura que para si tinha sido feita, contornou a casa, e alarmado começou a ladrar ao ver aquele que os observava através da janela da sala.

Ao ouvir o desassossego do cachorro, o pai do menino, abriu a porta e olhando em redor chamou-o. Como o pequeno animal não veio ao seu encontro, dirigiu-se ele ao sítio de onde o som vinha, encontrando o cão muito agitado, ladrando para a escuridão à sua frente.

- Então rapaz, o que é se passa? Viste algum coelho, foi? Vá, vamos para dentro. Estamos quase no Natal. É o tempo de sermos bons uns para os outros, mesmo para os coelhos, ouviste! – Brincou.

E, dizendo isto, pegou-lhe ao colo, e regressou para dentro de casa, não vendo o rasto de pegadas que se afastavam na direção da floresta nem um corpo branco a desaparecer no meio das árvores. 

 

Ocultado pela densa vegetação, viu quando regressaram a casa. Estava de novo em segurança.

Mas para que vocês percebam o que se está aqui a passar, vamos ter que recuar cinco anos no tempo…

Ele ainda se lembrava de quando a floresta lhe tinha dito que eles tinham chegado e curioso tal como qualquer criança, não descansou enquanto não viu os “sem-pelo” de perto.

Tinha-os achado esquisitos, mas ao mesmo tempo familiares. Caminhavam como ele, também eles se abrigavam numa espécie de caverna e tinha achado especialmente curioso o mais pequeno deles.

Claro que os seus pais não partilhavam do seu entusiasmo. Há muito que tinham assumido o papel de guardiões da floresta e viam os intrusos como um risco à segurança de todos. Logo proibiram o filho de se aproximar dos recém-chegados.

Triste, obedeceu…bem, pelo menos até àquela noite, quando alguma coisa, o atraiu até junto da “toca” dos estranhos, pela primeira vez. Sabia que ao se aproximar tanto, que estava a ir contra todas as recomendações dos pais, mas era mais forte que ele e usando o branco da neve para se manter invisível, espreitou…

Era a primeira Noite de Natal da família na casa nova e por isso os pais tinham-se esforçado para torna-la ainda mais especial.

Fitas vermelhas atravessavam a sala de um lado ao outro, estrelas e bolas douradas enfeitavam as paredes salpicadas de ramos de azevinho, e na lareira acesa, penduradas, estavam três meias de lã, duas grandes e uma pequena. A mesa, iluminada por velas, estava cheia de coisas saborosas de mil cores. Neste quadro digno de aparecer num postal, o pai e a mãe brincavam alegremente com o rapazinho. Tinham feito questão que o Pai Natal oferecesse ao menino o comboio elétrico que ele tanto queria. O petiz não coube em si de contentamento, de tal forma que, foi preciso levá-lo para cama quando adormeceu no meio dos carris. Mas tudo isto era insignificante, comparado com a felicidade que sentiam por estarem juntos.

Atentamente, ele observava do lado de fora da cabana e apesar de nunca ter visto nada assim, há coisas que não foram feitas para ser entendidas e sim para serem sentidas, tal como aquele calor bom que crescia dentro de si e que ele queria que nunca mais se fosse embora.

 

O Sol tinha desaparecido por trás da colina muitas vezes, desde então. Mas não se pense que o seu interesse pelos estranhos tinha diminuído com o tempo. Sempre que conseguia escapar à atenção dos pais, seguia-os para todo o lado. Tinha visto o menino crescer, a família a aumentar…mas sempre à distância, sempre escondido. 

O Homem conhecia-o a ele e à sua espécie por vários nomes, Pé Grande era apenas um deles, mas ele não sabia disso, assim como também não fazia ideia do que estava prestes a acontecer.

 

De regresso aos dias de hoje, antevéspera de Natal.

Depois de mais uma noite glaciar, um bonito dia recebeu a família. O pai, sempre o primeiro a acordar, tinha já saído para a floresta. A pequenina, mal pôs o pé fora da cama, correu para a janela e ao ver a luz do sol refletida no branco da neve, mal pode esperar para ir lá para fora. Depois de mal mastigar o pequeno-almoço, correu para a rua acompanhada pelo cachorro. A mãe, atarefada, pediu ao rapaz para acompanhar a irmãzinha. Contrariado, lá foi ele.

Os passeios com a irmã eram uma grande chatice. Para além dos milhões de perguntas que ela fazia, tinha de andar sempre a correr de um lado para o outro. A rapariguinha não parava quieta nem um segundo. E ele com tanta coisa tão mais interessante para fazer.

Ao longe dois veados fugiram assustados, mas da rapariguinha nem sinal. Chamou por ela…nenhuma resposta. Tentou então seguir as pegadas na neve. Depressa, encontrou o rasto dos dois pequenos desmiolados. Seguiu o trilho durante alguns minutos. Ele conhecia bem aquele caminho. Boas recordações puseram-lhe um sorriso no rosto. Já por ali tinha passado inúmeras vezes, quando ia para o lago praticar o seu desporto favorito, hóquei no gelo. Ainda não o tinha feito aquele ano, para grande tristeza sua pois…

Antes que pudesse acabar o pensamento, as felizes memórias foram substituídas pelo mais profundo receio. Da sua boca saiu apenas:

- Oh não, o lago!

Sem perder um instante correu, o mais depressa que pode.

Não demorou muito a chegar ao seu destino. Diante de si estendia-se uma grande extensão de água, rodeada por altas árvores. Era o local ideal, para as crianças se divertirem a valer com brincadeiras típicas daquela época do ano, quando, tal como naquele momento, se encontrava completamente congelada.  

Mas ele pouco ligou a beleza do local. Os seus piores temores tinham-se confirmado. Junto de si, na margem, o pequeno cão ladrava insistentemente, e, bem do meio do lago a menina brincava, improvisando uns patins com as solas das suas botas.

Na sua cabeça o menino ouviu as palavras do seu pai – “Este inverno tem sido menos rigoroso que os outros. E quando isso acontece o gelo do lago fica mais fino, por isso, nada de hóquei este ano,”

Tentando manter o máximo de calma que lhe era possível, o rapaz chamou pela irmã. Mas ela estava demasiado distraída para o ouvir. O que fazer? Olhou em redor tentando achar uma solução, mas nada lhe ocorreu. Não havia outra forma, tinha que ser ele a ir buscá-la. Afinal de contas, ela estava à sua responsabilidade e não podia permitir que nada de mal lhe acontecesse.

O mais cuidadosamente que pode, colocou os pés sobre o gelo e, lentamente caminhou na direção da menina. Passo a passo, foi-se afastando cada vez mais da margem nunca tirando os olhos do chão. De súbito parou, quando ouviu o som de algo a ceder. Ficou imóvel por momentos para avaliar a gravidade da situação. Como não escutou mais nada, continuou…

Algum tempo depois, voltou a chamar a rapariguinha. Desta vez, com sucesso.

- Pára! – Gritou, quando a sua irmã se preparava para correr na sua direção.

- Devagarinho, anda para o pé de mim! – Disse.

Sem entender o que se estava a passar, a garota obedeceu ao irmão, e de mãos dadas, encaminharam-se para a margem mais próxima. Quando já estavam a poucos metros de terra, o rapaz largou a mão da irmã, e disse-lhe para seguir à sua frente. Pouco depois, estava já em solo firme e em segurança. Aliviado, respirou fundo. Afinal, tudo tinha corrido bem. Em breve, estaria também ele a salvo. Deu mais um passo, sentindo-se tonto por se ter preocupado tanto, quando…

O mundo em seu redor ficou escuro, os sons ficaram longe e uma onda de frio como ele nunca tinha sentido nos seus poucos anos de vida, percorreu o seu corpo por inteiro. Quis gritar, mas não conseguia. O que ele mais receava tinha acontecido, o gelo tinha-se partido debaixo dos seus pés.

Sentiu-se ser arrastado para o fundo. Por cima da sua cabeça viu luz entrar através do sítio por onde tinha caído, mas esta afastava-se cada vez mais. Usando todas as suas forças bateu as pernas. Intermináveis segundos depois, atingiu a tona da água e respirou fundo, como se fosse a primeira vez que o fazia. Apenas com a cabeça e os braços de fora, tentou desesperadamente manter-se à superfície, mas, o escorregadio gelo, e a água fria que o encharcava não ajudavam em nada. Pouco a pouco sentiu-se escorregar de novo. Dirigindo-se à irmã que em, pânico via tudo o que se passava, gritou:

- VAI CHAMAR A MÃE!

Pegando no cãozinho ao colo, a menina olhou uma última vez para o irmão antes de começar a correr através do caminho que tinham feito pouco antes.

Na margem contrária, o jovem habitante da floresta assistia a tudo. O pequeno “sem-pelo” estava em perigo. Agora, uma difícil escolha tinha que ser feita. Deveria ele esquecer tudo aquilo que lhe tinha sido ensinado, deixando que o vissem para assim tentar ajudar o pequeno estranho, ou então, permanecer escondido nas sombras enquanto deixava o menino entregue a um cruel destino?

A decisão estava tomada.

De um salto só, saiu de trás do arbusto que lhe servia de esconderijo e correu para o lago. Hesitou por momentos antes de pôr os pés sobre o gelo. O seu instinto dizia-lhe para não o fazer, mas não seria isso que o faria parar, mas, infelizmente, tudo o que de pior podia acontecer…aconteceu.

Nunca o mais pequeno som tinha saído da sua boca. Tinha aprendido que deveria, sempre, manter o mais absoluto silêncio, mas o contacto com a água fria, quando o gelo se partiu, fez com que soltasse um grito que até a ele deixou espantado. De repente, viu-se na mesma situação daquele que pretendia salvar sem solução à vista.  

Não muito longe dali, o pai do menino, com os seus binóculos, observava um jovem glutão. Na semana anterior tinha-o visto a coxear, mas agora parecia bastante melhor. Orgulhava-se por ser capaz de distinguir os vários animais da floresta uns dos outros, bastando para isso olhar para eles. Conhecia cada mancha, cada risca, cada cicatriz. Afinal eles eram a sua segunda família. De súbito, algo fez o glutão fugir, bem como duas corujas que repousavam num tronco bem acima da sua cabeça. Se ele não soubesse melhor diria que se tinha tratado de um grito. Depois de perceber de onde o som tinha vindo, apressou-se a seguir nessa direção.

Não demorou muito até que reconhecesse aquele como sendo o caminho para o lago, o que fez com que acelerasse ainda mais o passo. Um grito vindo daquela zona só poderia significar más notícias. Mas nada o podia preparar para aquilo que iria encontrar.

Mesmo antes de chegar, já conseguia ver o branco do gelo. Mas foi só, quando estava a poucos metros da margem, que o seu coração quase parou com aquilo que viu. Exatamente do lado oposto àquele onde se encontrava, reconheceu de imediato o seu filho a lutar desesperadamente pela vida, enquanto que, a poucos metros de si, em semelhante situação, estava um pequeno ser que teria aproximadamente o tamanho de uma criança, mas estava completamente… coberto de pelo. Mas, ainda antes que ele tivesse tido tempo de sequer começar a perceber o que se estava ali a passar, um novo acontecimento prendeu a sua atenção. Aparentemente, ele não tinha sido o único a ouvir o grito.

O sangue nas suas veias ficou mais gelado do que água do lago, quando viu surgir, de entre as árvores, no extremo contrário, a uma curta distância do local onde o rapazinho se debatia para não se afogar, uma enorme criatura de pelagem branca. O gigante ficou imóvel a olhar na direção daquela que seria certamente a sua cria. Uma mistura de espanto e de medo apoderou-se do pai do rapaz. O seu cérebro tentava encontrar algum sentido em tudo aquilo que via, mas, algo falou mais alto, o seu filho corria risco de vida, pensaria no resto depois.

Mas o lago era grande demais para chegar a tempo se o contornasse, e atravessá-lo não era opção. A única coisa que conseguiria era cair à água também. O que fazer? O que fazer?

Sentiu o desespero apoderar-se de si. Estaria a criatura a sentir o mesmo que ele? Por breves momentos, os seus olhares cruzaram-se e mostravam a mesma angústia.

Não havia outra solução, tinha de tentar rodear o lago o mais rapidamente que conseguisse. Mas, foi quando se preparava para dar o primeiro passo, que algo o fez parar. Ele não podia acreditar naquilo que via.

O gigante branco, ajoelhado no chão esticava o seu enorme braço na direção do rapaz e agarrando a sua mão puxou-o para terra. Mas como seria aquilo possível, aquela criatura acabara de salvar o seu filho.

Já com o menino deitado junto a si, o ser da floresta olhou mais uma vez para o homem e depois para o seu próprio filho e aquilo que os seus olhos diziam não deixava dúvidas. 

Pela primeira vez desde que tinha ali tinha chegado, o guarda-florestal sabia exatamente o que tinha de fazer. Ainda mal recomposto do choque que aquilo que tinha acabado de ver lhe provocara, olhou em redor e vendo um grande ramo a poucos metros de si, correu para ele. Regressou então para junto do lago e segurando uma das extremidades, colocou a outra ao alcance do pequeno Pé Grande. Este, ao ver a salvação ao seu alcance, agarrou-a com as duas mãos, enquanto era puxado para fora da fria água.

Já em segurança sacudiu-se e depois de alguns a momentos a recuperar as forças, encarou o seu salvador uma última vez e correu para junto do grande ser da floresta o mais rápido que pode. Quando aí chegou, procurou abrigo atrás do pai, sendo recebido por uma enorme mão, que gentilmente, lhe acariciou a cabeça. A atenção da grande criatura voltou-se então para o rapazinho. Encharcado e exausto continuava deitado no chão. Percebendo o estado em que o menino estava, pegou-lhe com os seus enormes braços, e, aconchegando-o junto a si, lentamente caminhou para a outra margem.

Do outro lado do lago, o pai do menino, ansioso, assistiu enquanto o gigante branco a ele se dirigia carregando o seu filho. Quando finalmente junto dele chegou, curvou-se e delicadamente, a criança lhe entregou.

Antes de regressar para junto da sua assustada cria, a mítica criatura olhou para o homem. Este retribuiu o gesto e o silencioso agradecimento daqueles dois pais ecoou por toda a floresta.

Mais descansado, ao colo do seu pai, baixinho o menino perguntou:

- O que era aquilo pai?

- Uma lenda filho, era só uma lenda…

 

Regressaram a casa. Momentos depois, encontravam a mãe e a irmã que, a correr vinham em socorro do pequeno, longe de sequer imaginar o que acabara de acontecer. O alívio transformou-se num abraço.

 

A Noite da Natal tinha chegado. A lareira, agora com cinco meias penduradas (a pequenina tinha insistido que o cachorro tinha que ter uma também), tornava a cabana muito acolhedora.

O rapaz, já totalmente recuperado, brincava com a irmã. Os dois riram a bom rir ao verem o pequeno cão assustar-se quando, uma grande e brilhante bola vermelha da decoração da sala caiu ao chão, fazendo-o procurar refúgio atrás da cadeira de baloiço do pai. De longe, os pais observavam, encantados com aquele momento, dando-lhe ainda mais valor depois do que se tinha passado.

Nenhum deles deu importância, quando o cão se afastou e se aproximou da porta da rua, nem repararam quando ele saiu. Foi só quando o ouviram ladrar que se aperceberam que algo se passava.

O pai abriu a porta, e depois de recuar alguns passos, disse:

- Temos visitas…

A mãe e as duas crianças aproximaram-se.

A luz da lua desenhava as suas sombras na neve. Em silêncio, os dois observavam a cabana dos “sem-pelo”.

O rapaz saiu, parando poucos metros depois. A mãe ainda o tentou impedir, mas o pai sossegou-a, dando-lhe a entender que não havia motivo para se preocupar.

O pequeno Pé-Grande estava finalmente frente a frente com aqueles de quem, sem eles saberem, fazia parte da vida havia tanto tempo.

Ganhando coragem, avançou na direção do menino, parando apenas quando uma curta distância os separava. Aí, olhou nos olhos do rapazinho e debruçando-se, colocou algo no chão.

O rapaz, com coração aos saltos, observou enquanto o pequeno visitante regressava para junto do gigante e foi com alguma tristeza que os viu encaminharem-se de volta para a floresta. Mas, quando eles pararam e olharam para trás uma última vez, alguma coisa dentro de si lhe disse que os voltaria a ver.

Começou a nevar, e as pegadas que mostravam que as criaturas ali tinham estado, começaram lentamente a desaparecer. Foi nessa altura que ele olhou para baixo para ver o que tinha sido deixado aos seus pés. Aquilo que viu fê-lo sorrir. Ali, meia enterrada na neve, estava…uma noz, uma única e simples noz.

 

Fim

 

 


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