A maldicao de Artur parte 1 - Silencio por Nuno Carvalho

Reads: 101  | Likes: 0  | Shelves: 0  | Comments: 1

More Details
Status: Finished  |  Genre: Historical Fiction  |  House: Booksie Classic
Esta é a primeira parte de uma série de capítulos que irão retratar a minha interpretação da Lenda do Rei Artur e o Ciclo do Santo Graal.

Submitted: October 28, 2014

A A A | A A A

Content

Submitted: October 28, 2014

A A A

A A A


A maldição de Artur

Silêncio

O que faz um rei? Quais são as virtudes e características que um líder deve incorporar? Deve ele colocar-se à frente dos seus sujeitos, ou atrás deles? Deve ser ele um tirano e seguir os seus próprios ideais? Ou deve ele ser a personificação da vontade e ambições do seu povo?

Pelo mundo fora, muitas histórias se contam sobre magníficos reis que salvaram os seus países da morte e ruptura, que combateram inimigos impossíveis e que trouxeram a prosperidade com as suas vitórias.

No entanto, não existe uma história tão maravilhosa, cativante e trágica como a história de Artur, Rei dos Cavaleiros.

 

“Aquele que retirar a espada desta pedra, tornar-se-á o rei legítimo de Inglaterra.” As palavras ecoaram nos ouvidos de Artur como o som de um grito numa gruta. As mãos tremiam-lhe, o suor escorria-lhe pela testa e custava-lhe a respirar. Ele sabia que a decisão que tomasse iria ter repercussões para o resto da sua vida.

“Alguém tem que acarretar com as responsabilidades do nosso povo, alguém tem que se sacrificar”, pensou Artur. A confusão e a desordem tinham-se espalhado pelo reino como uma praga. Os nobres e senhores matavam-se uns aos outros com os seus esquemas e planos, o que ameaçava não só a estabilidade económica de Inglaterra, mas também a estabilidade emocional do povo. Artur sabia que isso não poderia continuar.

Colocou as mãos no punho da espada.

O feiticeiro sorriu um sorriso louco.

- Tendes a certeza? – A sua voz era aguda e rápida como um chicote. – Assim que a espada repousar nas vossas mãos, não há como voltar atrás. Ouvistes dizer que ninguém conseguia tirar a espada da pedra, mas isso não é a verdade. A maior parte das pessoas não sabe o que é ser rei, o que o constitui e o que o torna um líder… O medo toma conta delas, o desespero e loucura domina as suas almas. Saberás tu, Artur, filho de Uther, o que faz um rei? Ou serás, também tu, dominado pelo fracasso daqueles que vieram antes de ti?

Artur respirou fundo e os seus cabelos loiros esvoaçaram ao toque do vento de fim de tarde.

- Sois vós a minha consciência? – Perguntou ele, de olhos postos na espada. – Feiticeiro, tendes a capacidade de ler os meus pensamentos? Se tendes, sabereis que o meu coração bate com o medo do fracasso, sabereis que não tenho quaisquer garantias que o meu reino será justo e glorioso, sabereis que eu sou apenas um homem, apenas um jovem, sem qualquer treino de como ser um líder. Se eu não retirar esta espada desta pedra, como poderei eu enfrentar os meus antepassados e dizer-lhes que nem sequer tentei? O medo é um sentimento poderoso, que pode dominar até o mais poderoso dos homens. A partir de hoje, eu não sou mais um homem. Eu sou uma ideia. Tornarei do medo, uma arma, um aliado.

Dito isto, Artur retirou a espada da pedra com uma extrema facilidade. O feiticeiro, parou durante longos momentos a olhar para o jovem, como se estivesse a acordar de um sonho. O sol do fim de tarde tocou nos seus cabelos loiros, depois nos seus olhos azuis e, finalmente, na espada que repousava nas suas mãos. Artur fazia-lhe lembrar um leão, majestoso e confiante, forte e corajoso.

- Assim está escrito e assim será feito. – O feiticeiro pigarreou. – A partir de hoje, sóis Artur, Rei de Inglaterra.

 

 

Merlin encontrou Artur na varanda que supervisionava o terraço de treino. O som de espadas a colidirem, os gritos de aprovação e os risos soltados pelos cavaleiros do Rei, concediam a Camelot um ambiente de boa disposição e animação.

Artur observava detalhadamente o treino dos seus Cavaleiros, imerso nos seus próprios pensamentos. Merlin concentrou-se nos seus olhos azuis, que viajavam por terras distantes da mente do Rei. “O que vos perturba tanto, meu Rei?”, pensou o feiticeiro, sem coragem para se expressar por palavras.

- Majestade. – Disse, suavemente. – Todos os preparos foram feitos de acordo com as suas instruções.

Artur abriu e fechou os olhos, como se tivesse sido arrancado de um sonho.

- Merlin. – A sua expressão era de pedra. – E os cavalos?

Quando o Rei se virou para o encarar, Merlin recordou que à sua frente encontrava-se um jovem de pouco mais de dezanove anos. A sua voz fazia-o parecer muito mais velho.

- Devem estar preparados a qualquer momento.

- Muito bem. – Os olhos do Rei desapareceram na distância. – Ouvi-a outra vez, Merlin, ontem à noite. A Dama do Lago.

Os olhos do feiticeiro arregalaram-se.

- Não me surpreende que ela tenha tomado interesse por vós, Majestade. Por isso mesmo é que partiremos hoje ao seu encontro.

Artur virou-se, de novo, para o seu feiticeiro.

- Sabeis mesmo a sua localização?

- Sei, Majestade. Foi a Dama que me induziu e treinou nas artes mágicas, quando eu era apenas uma criança.

O Rei mostrou-se surpreso.

- Ela é mais velha que vós?

O feiticeiro, de cabelo grisalho e barba longa, mostrava ultrapassar os sessenta anos.

- A Dama é… Especial. Percebereis quando a conhecerdes, Majestade.

Um mensageiro apareceu rapidamente vindo dos corredores, falou brevemente com Merlin e retirou-se da mesma forma.

- Os cavalos estão prontos, Majestade.

Artur acenou e retirou-se, seguido de Merlin e dois cavaleiros que o guardavam. À medida que se passeavam, todos os nobres, cavaleiros e figuras ilustres paravam para trocar um cumprimento com o Rei.

- Bons dias, Majestade. – Diziam uns.

- Saúde e força a vossa Majestade. – Diziam outros.

Artur trocava breves olhares e gestos com aqueles que o cumprimentavam. No entanto, a sua expressão mantinha-se firme como o de uma estátua. Muitos começavam a dizer que o Rei era incapaz de experimentar qualquer tipo de sentimentos, que não possuía qualquer tipo de paixão. Haviam aqueles que diziam que um Rei não devia viver assim, especialmente por ser tão jovem.

“Um Rei deve ser um símbolo de força e perseverança. Tenho que esconder a minha felicidade, a minha tristeza, o meu medo e a minha coragem para que os meus súbditos a possam sentir.”

Sir Kay e Sir Jordanus esperavam Merlin e o Rei junto dos estábulos, acompanhados dos seus próprios cavalos. O cavalo de Artur era impressionante, com uma pelagem branca-acinzentada que reluzia com o toque do sol. Os seus olhos eram tão verdes e serenos como as florestas que rodeavam Camelot.

O cavalo de Merlin era um garanhão preto como a noite, dotado de um ar tão selvagem que ninguém sabia como é que o feiticeiro o conseguia controlar. Os seus olhos eram castanhos, profundos e fortes, mostrando uma experiência para além dos seus anos.

- Sir Kay. Sir Jordanus. – O Rei mostrou-se surpreso. – Não vos esperava aqui.

Os cavaleiros trocaram um olhar entre si, dirigindo-os imediatamente para Merlin e, finalmente, para o seu Rei.

- Apenas garantimos a vossa segurança Majestade. – Disse Sir Kay.

- Merlin pode garantir a minha segurança. – Retorquiu o Rei. – Apenas vou sair para um pequeno passeio.

Os cavaleiros concentraram, de novo, os seus olhos no feiticeiro.

- Temos que insistir Majestade. Não é todos os dias que podemos apreciar um passeio na vossa companhia. – Explicou Sir Jordanus.

“Parece que não tenho alternativa.”

- Muito bem. – Disse Artur, à medida que montava. – Será um prazer disfrutar da companhia de amigos como vós.

Merlin reparou na forma como o Rei apresentou o seu sorriso. Não era sincero, era forçado, distante e desesperado. Ele próprio sabia das consequências do chamamento da Dama do Lago mais do que qualquer outro homem. Ele sabia o quão enlouquecedor ele podia ser.

Artur e os cavaleiros seguiram Merlin pela floresta dentro, depositando a sua confiança no feiticeiro. Os olhos de Kay e Jordanus encontravam-se fixos no seu Rei, enquanto os olhos de Artur encontravam-se presos no horizonte.

- Tens treinado como te disse? – Perguntou Kay, baixinho, à medida que se aproximou do cavalo de Artur. – Não quero que digam que o Rei não sabe lutar.

Artur esboçou o mais breve dos sorrisos.

- Tenho feito os exercícios como me instruíste. – A súbita informalidade pareceu animar Artur. – Ainda não sou tão rápido como tu, mas Ulfius disse-me que mostro promessa.

- Têm praticado em privado?

- Temos. No entanto, Ulfius é um professor mais duro do que tu.

Kay largou uma breve gargalhada.

- Quem teve a brilhante ideia de me mandar para Sul?

Desta vez, Artur mostrou o seu verdadeiro sorriso. Um breve raio de sol tocou a escura floresta.

- Precisava de saber o que o Rei dos Cem Cavaleiros andava a aprontar. Por muito que queira, não confio nos cavaleiros do meu pai. Vejo algo nos seus olhos… Como se eles estivessem presos num sonho e não querem acordar.

- Por tudo o que valha, és o meu irmão e o meu rei Artur. Não fico rancoroso com as ordens que me dás.

- Também te considero um irmão, Kay. – O olhar do Rei perdeu-se novamente no horizonte do seu mundo. – Tu e Heitor são a minha família. Os que vieram com Uther, o meu pai, são desconhecidos, sombras de um passado distante.

Kay manteve o silêncio durante longos momentos. Era um silêncio de duas partes. Uma parte escondia Kay, os seus receios, as suas esperanças e o seu orgulho. A outra parte escondia um rei, também com os seus receios, as suas esperanças e o seu orgulho, no entanto, sabemos que um rei não é apenas constituído por estes sentimentos. Este silencio detinha, de igual modo, os sonhos de Artur, o seu amor pelo povo e súbditos, a sua força, a sua honra e a sua obediência. Kay soube apreciar esse silêncio, tal como apreciava o seu Rei, mas havia algo que ele não poderia ignorar.

- Porque é que estamos aqui? – Perguntou ele.

- Estamos a seguir Merlin. – Respondeu Artur, como se fosse óbvio.

- Isso eu consigo ver. Mas porquê?

- Merlin disse-me que sabe a localização da Dama do Lago.

Kay mostrou a sua frustração na sua cara.

- Ainda estás a perseguir esse mito? Todos dizem que Merlin é louco, que se autodenomina um profeta e um mago e eu não vejo provas do contrário. Ainda por cima, tu nominaste-o para teu Conselheiro Privado.

- Merlin não é louco. – Disse Artur divertido e surpreendido. – Admito que ele é... excêntrico, mas ele deu-me bons conselhos até agora.

- Referes-te às batalhas no rio Dubglas? Qualquer homem com o mínimo de experiência num campo de batalha conseguiria prever os movimentos dos Saxões. Eram um bando de selvagens com estratégias primitivas. A sua derrota era inevitável.

Artur lançou a Kay um olhar repreendedor.

- Não te consigo explicar, Kay. Vi o poder de Merlin com os meus próprios olhos. Embora os seus métodos pareçam incomuns agora, tenho a certeza que terão o seu propósito explicado mais tarde.

O jovem cavaleiro revirou os olhos, mas aceitou a resposta do seu Rei.

- E então? O que é que Merlin diz sobre esta Dama do Lago?

- Merlin disse-me que foi ela que o induziu nas artes mágicas. Ele diz que é uma tremenda honra ser-se abordado por ela e que os seus chamamentos não devem ser ignorados.

- E foste tu abordado por ela?

Artur produziu uma estranha cara.

- Ela aparece-me em sonhos, se for possível acreditares nisso. O seu chamamento é muito apelante. Perdes-te na sua voz... Ela diz que tem algo para mim.

Kay levantou uma inquisitiva sobrancelha.

- Algo para ti? O que é?

Artur acenou com a cabeça.

- Não sei. Merlin também não. Posso apenas assumir que seja importante.

- Não gosto disto. – Disse Kay. – Não gosto disto nem um bocadinho.

O Merlin parou de súbito, um pouco antes de um grande lago encoberto por névoa. Artur reparou rapidamente na imobilidade daquele sítio. As folhas das árvores não se mexiam, as ondas não dançavam nas águas do lago, não havia nenhum som...

- Só eu e o Rei podemos avançar daqui para a frente.

- Isso não, feiticeiro. – Interveio Kay, indignado. – Esqueces-te dos juramentos que fizemos? Estamos jurados a proteger o Rei a todas as alturas.

O sorriso de Merlin foi gélido.

- Sois livre de avançar, cavaleiro, mas duvido que a Dama fique contente com a vossa presença. Existe uma razão de ela falar apenas com quem deseja. Todos os outros perdem as suas vidas nas suas águas.

- Estais a ameaçar-me, feiticeiro? – Kay tocou no punho da sua espada.

- Chega, Kay. – Interrompeu o Rei. – Eu não demorarei. Jordanus, fazei companhia a Sir Kay por uns momentos. Eu e Merlin voltaremos em breve.

O experiente cavaleiro sorriu levemente, da sabedora maneira que advém de alguém que está habituado a servir reis.

- Com certeza Majestade. – Jordanus fez uma pequena vénia.

Os quatro homens desceram dos seus cavalos e, de seguida, Merlin e Artur deslocaram-se para o coração do lago.

Com os seus olhos azuis postos na floresta, o Rei vislumbrou as ruínas de antigas torres de vigia, vestidas pelas heras e pelo musgo.

- Quão velho é este lugar? – Perguntou ele, finalmente.

- Dizem que o tempo parou aqui. – Disse Merlin, de forma satisfatória. – Ninguém sabe que civilizações passaram por estes lados, nem porquê. Não me admira que a Dama do Lago tenha escolhido viver aqui. Está repleto de antigas e poderosas energias.

Tanto feiticeiro como rei caminhavam com cuidado e lentamente, como se o menor movimento perturbasse a imobilidade daquele lugar. Pouco depois, encontravam-se junto às margens do lago. As suas águas eram profundas e escuras, escondendo tudo o que ela envolvia, como um longo vestido.

Merlin manteve-se quieto e silencioso durante longos momentos, como se estivesse em pensamento profundo. Os seus robes azuis-escuros, dançaram por um breve segundo, imobilizando-se logo a seguir.

- Vejo que me trouxeste o Rei de toda a Inglaterra. – Uma voz feminina surgiu do centro do lago. – Parece-me que fiz bem em mandar-te ao seu encontro.

- Sempre acreditei firmemente nos vossos conselhos. – Merlin ajoelhou-se nas margens húmidas do lago.

Levemente, uma figura começou a emergir do lago. Artur reparou na forma de mulher, no longo vestido azul-claro que trazia, os seus longos cabelos pretos como tinta. Ela caminhou por cima das águas, na direcção do rei que se mostrava claramente surpreendido.

“Talvez esta história da Dama do Lago não seja assim tão absurda.”

A mulher que lhe apareceu era a mulher mais bela que Artur alguma vez tinha visto. Os seus olhos eram de um azul igual aos do Rei, a sua cara era delicada mas forte, os seus lábios eram vermelhos como um morango, a forma do seu corpo era serpenteada e atractiva. O seu vestido molhado realçava todas as suas feições e Artur não conseguiu evitar o desvio do seu olhar.

- Tendes vergonha de mim, Majestade? – A voz da Dama do Lago era tão cativante como Artur se lembrava.

- Não, minha Dama. Apenas sois um pouco diferente daquilo que tinha imaginado. – Respondeu o Rei, tentando manter os seus olhos nos da Dama.

- Havíeis esperado uma velha? Alguém como Merlin? – Ela deixou escapar uma gargalhada. – A idade não te tem feito bem, meu velho aprendiz.

Merlin levantou-se lentamente.

- Terei que discordar. – O feiticeiro concentrou o olhar na sua Mestre. – O que o tempo fez ao meu corpo, compensou-o na minha mente. Encontro-me mais sábio do que quando parti do vosso lado.

- Vejo que sim, Merlin. – Ela mostrou um sorriso. – Falarei contigo depois. Majestade. Se fizerdes o favor de me seguir.

Artur hesitou um pouco em seguir a Dama do Lago mas, mesmo assim, deu um passo em frente, em direcção às águas. Para a surpresa do Rei, ele verificou que, também ele, conseguia caminhar sobre o lago.

- Não me importo de favorecer todos aqueles que caem nas minhas graças. – Disse a Dama do Lago de costas viradas para o rei. – Afinal, tinha que vos mostrar parte do meu poder para ser mais credível aos vossos olhos.

Quando ela se virou, Artur ficou novamente preso no transe que era a existência da Dama do Lago. O rei também reparou que, à volta dos dois, apenas se encontravam o nevoeiro e as águas do lago. Artur não conseguia vislumbrar nem Merlin, nem Kay, nem Jordanus.

- Dissestes que tínheis algo para me dar. – Disse o Rei.

- Tomastes atenção aos meus chamamentos. É verdade, tenho algo para vós. – Respondeu a Dama sem rodeios.

- Presumo que querereis algo em troca.

Ela aproximou-se do Rei, tocando ao de leve na sua armadura dourada. Artur acompanhou os seus movimentos com os olhos.

- É apenas normal numa situação como esta, não?

- O que é que que quereis? Se estiver no meu poder, conceder-vos-ei.

A Dama pousou a mão no antebraço do rei, aproximando o corpo molhado ao seu.

- Sois sempre assim tão apressado, Rei Artur? – Ela esboçou um sorriso atrevido. – Nem sequer sabeis o que tenho para vos dar.

O Rei afastou-se um pouco.

- Merlin disse-me que seria, sem dúvida, algo muito valioso.

- Merlin tem razão. – Ela aproximou-se novamente do Rei. – Tenho em minha posse um tesouro muito valioso. Algo digno do Rei de toda a Inglaterra. O seu nome é Excalibur.

Os olhos de Artur arregalaram-se.

- A Espada Sagrada?

- Ela é um tesouro antigo. Um tesouro do primeiro rei de todo o mundo. Ela acha-te digno.

- Que quereis por Excalibur?

A Dama do Lago estendeu uma mão e do lago começou a surgir uma espada, vinda das águas mais escuras. A arma era magnífica, com um punho e cabo dourados, com um rubi vermelho como o sangue no pomo. O guarda-mão estava pintado de um azul-escuro metálico, que se abria para a lâmina límpida como uma nascente, que media mais ou menos noventa centímetros. Um sulco da mesma cor do guarda-mão percorria-a quase até ao limite, dando-lhe elegância e majestosidade.

A Dama agarrou a espada com uma mão determinada, estendendo-a, de seguida, para o Rei.

- Ela pertence-vos, Majestade. O que poderei eu querer por algo que já vos pertence? – O sorriso da Dama tornava-se cada vez mais atrevido.

Artur tomou, muito cuidadosamente, a espada nas suas mãos. Assim que os seus dedos entraram em contacto com a arma, o Rei sentiu algo que nunca tinha sentido antes: uma força inexplicável.

- Mesmo assim. – Disse Artur sem tirar os olhos de Excalibur. – Como vos posso recompensar?

A Dama do Lago encostou o corpo às costas do Rei. Artur manteve-se imóvel.

-. Existem aqueles que dizem que ser rei é uma maldição, outros que dizem que é uma bênção. O tempo dar-vos-á as respostas que procuras, Rei Artur. O que eu quero é a resposta a isso mesmo. Excalibur irá ajudar-vos.

Com isto dito, a Dama do Lago pegou suavemente na cara do Rei e beijou-o nos lábios.

 


© Copyright 2017 Nuno Carvalho. All rights reserved.

Add Your Comments:

Comments

More Historical Fiction Short Stories