Amo-te

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Status: Finished  |  Genre: Horror  |  House: Booksie Classic
Um jantar de namorados corre mal.

Submitted: December 08, 2013

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Submitted: December 08, 2013

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Uma mão jovem e delicada, feminina mas com força agarrava um naco de carne assada colocada sobre um tabuleiro enquanto que com a mão esquerda essa carne dividia-se em fatias com a ajuda de uma serra eléctrica de cortar carne.

Essa jovem mão pertencia a Juliana, uma mulher bela, de cabelo ondulado que exibia um simples vestido beje decorado com um estampado de enormes bolas pretas espalhadas por toda a parte.

Juliana era a típica dona de casa dos loucos anos vinte, vivia com o seu marido Ricardo e não tinham filhos, ainda não era tempo, a juventude de Juliana ainda queria durar mais uns anos antes de se submeter a tal coisa.

A jovem rapariga de vinte e poucos anos fugira de casa mal chegou à idade adulta, devido aos seus pais ríspidos e rigidos não permitirem o seu relacionamento com Ricardo, um homem já com trinta e muitos anos mas que permanecia com um sorriso enorme e jovial.

Fugindo de casa com Ricardo, procuraram ter uma vida normal e sossegada sem mais conflitos e assim o conseguiram.

Viviam bem com o salário de Ricardo que era contabilista, um homem de algum sucesso e muito apreciado por toda a gente devido à sua maneira de ser amigável e jovem.

Tal trabalho poderia ser stressante e desgastante mas Ricardo levava uma vida descontraída sem muitos atritos e assim queria permanecer.

Juliana tiritava uma música qualquer que se assemelhava a uma entoação de embalar, sorria para o seu naco de carne enquanto mantinha o outro olho de vigia para os seus legumes a cozer no seu pequeno fogão.

– Finalmente poderemos ter uma noite mais descansado e só a dois... - murmurou Juliana acabando de fatiar a carne e colocando-a exposta numa travessa com motivos florais.

Virou-se para o fogão e remexeu com uma colher de pau comprida os seus legumes cozidos.

– Está quase pronto... - sussurrou para si mesma.

Desligou o fogão e virou-se de costas para este, exibindo um enorme sorriso de orelha a orelha soltando sem querer uma enorme gargalhada que parecia ter ecoado pela casa.

– Finalmente... - Juliana dirigiu-se a um dos seus armários brancos superiores, colocados por cima do fogão e retirou um frasco com um conteúdo de pó branco, pegou numa colher de sopa de uma das gavetas ao lado do fogão e retirou com esta uma pequena porção do pó branco que espalhou pelo cozido, fazendo a água borbulhar. - O toque final...

A cozinha estava tipicamente decorada familiarmente, alguns móveis brancos, uns armários superiores constituídos por diversas portas com uma pega preta.

Por baixo tinhamos o balcão anexado com o fogão, um bacão de mármore branco escurecido em que se apoiava sobre um móvel branco preenchido com gavetas.

O balcão servia de apoio a copos, jarros, pratos e ainda tinha um local para lavar a loiça manualmente e um suporte em ferro para a colocar a secar.

Cada gaveta tinha um propósito, ora uma servia para todos os talheres, ora outra para panos e farrapos, ora outra para diversos utensílios incluíndo facas enormes e brilhantes ou colheres de pau com diversos tamanhos e feitios.

Ao centro da cozinha estava uma pequena mesa de madeira pintada a branco com pernas de ferro e uma jarra circular azul com malmequeres amarelos é exibida ao centro.

A cozinha era finalmente decorada com um frigorífico e uma arca congeladora.

Não exisitiam tapetes no chão nem outros farrapos, para Juliana essas coisas apenas serviam para dar mais trabalho e sujar o pavimento.

Quanto menos trabalho, melhor e já a lida da casa era um terror, todas as semanas as prateleiras, móveis, tapetes e afins encontravam-se submersos em pó negro, Juliana não percebia o porquê nem encontrava explicação para tal coisa, limpava a casa de manhã, diariamente, e quando caía a noite o pó assentava novamente como se nada tivesse feito.

Juliana pega num pequeno estojo vermelho, quadrado do fundo de uma gaveta que se encontrava mais perto do chão e coloca-o debaixo do braço, saindo pela porta das traseiras, deixando-a encostada.

Olha para o céu e sorri novamente, como se sentisse pela primeira vez a verdadeira liberdade, inspirando fundo, dando outra pequena gargalhada.

De dentro do estojo retirou um maço de tabaco que ainda continha dois cigarros. O restante estojo era recheado com um batôm vermelho, um lápis preto para o contorno dos olhos, um verniz vermelho vivo e uma pequena caixa de fósforos alaranjada e um pouco maltratada pelo tempo.

Acendeu um dos cigarros, soltou a primeira fumarada e mira atenta e seriamente as árvores escuras à sua frente colocando uma mão sobre o seu ventre.

Uma pequena brisa faz as árvores lutarem entre si como se ali estivesse algum animal.

– As mulheres não devem fumar, o raio que os parta... - disse para si mesma, sempre com os olhos colados nas árvores que se agitavam cada vez mais violentamente.

Olhou mais a fundo e nos arbustos quase que se abriu um pequeno buraco e no fundo dele surgiram dois olhos amarelos brilhantes.

Juliana ficou com uma expressão de surpresa e susto estampada na cara, mas não se moveu, levou o cigarro à boca e lançou mais uma baforada cinzenta no ar.

– Mas que raio?

Dito isto, os olhos desapareceram e os arbustos fecharam-se entre si como se tivessem vida própria, arrastando-se entre galhos. Mais uma leve brisa passou por ali, desta vez com mais força, fazendo com que o cabelo curto de Juliana bailasse e se despenteasse para a frente dos seus olhos grandes, escuros e brilhantes.

Acabou o seu cigarro mesmo na ponta do filtro, levou a beata ao chão e apagou-o, atirando de seguida para o seu lado direito onde se encontrava uma porção de terra batida.

Ricardo não sabia que Juliana fumava e não aceitava isso, achava que era um desperdício de dinheiro e preferia que a sua amada gastasse o seu salário que lhe dava para as compras da casa.

O pouco que lhe dava, chegava para todas as compras mensais e ainda chegava para alguns maços de tabaco mas este não precisava de saber, fazendo Ricardo crer que Juliana juntava dinheiro para futuros problemas que pudessem surgir nas finanças deles.

Juliana guardou o seu maço de tabaco de volta no estojo e retirou o batôm, usando-o nos seus lábios finos, pintando-os de vermelho vivo.

Ajeitou o cabelo para o lado e entrou dentro da cozinha, guardando e escondendo o estojo novamente na gaveta do fundo, sabia perfeitamente que não corria qualquer risco de Ricardo encontrar o maço pois a mentalidade masculina ainda ditava que o lugar das mulheres era na cozinha, Juliana achava que a mulher tinha o direito de estar em qualquer lugar que bem entendesse.

 

Por diversas vezes Juliana procurou emprego na zona, não podia ir muito longe pois não tinha forma de se deslocar e não queria incomodar Ricardo com esses problemas.

Nenhum local a queria, era tudo comandado por homens e nenhuma mulher deveria ficar na frente de nenhum negócio.

O ser masculino olhava para a mulher como dona de casa, pura e simplesmente e pensar sequer que esta podia lidar com um negócio era impensável, quase que um mau olhado ou bruxaria.

Os únicos locais que estavam disponíveis a aceitar Juliana eram empresas fabris mas Ricardo sempre se ôpos a isso, achando que Juliana iria ser tratada como uma escrava, para isso ficaria em casa e ele trataria dos dinheiros que ali entrassem.

Isto não incomodava muito Juliana mas estava farta de ser colocada num posto inferior, não se achava inferior a nada, mas sim igual perante o homem.

Os seus pais viviam da mesma forma mas com uma mentalidade ainda mais retrógada.

A sua mãe por diversas vezes foi vítima de violência doméstica e calava-se, não queria fazer queixa e sabia que se o fizesse, a policia local nada faria e ainda seria morta pelo marido que se transformava num verdadeiro perigo quando a bebida já ia a mais dentro dele.

Juliana assistia a esse espectáculo de horror diversas vezes por mês, chegando mesmo, por vezes, a levar uma tareia do pai que a colocava de cama vários dias com diversos hematomas.

Calava-se, mesmo sabendo que não deveria aceitar tal situação, mas não podia fazer nada pois sabia lá no fundo que o mundo não era justo.

Foi por essas e outras razões que Juliana decidiu abandonar a casa dos seus pais, saturou-se de ser espancada e ver a mãe cingir-se aos pedidos do seu marido violento.

 

Eram já vinte e um horas do dia catorze de fevereiro, Dia de S. Valentim e um carro vemelho vinho estacionara nessa calada noite, noite essa decorada com milhões de estrelas brilhantes que se exibiam no céu.

O tempo estava ameno, algumas pessoas passeavam-se por ali, especialmente casais verdadeiramente apaixonados de mãos entrelaçadas, dirigindo-se para as suas respectivas casas para, talvez, um jantar romântico à luz das velas.

 

Juliana acabara de decorar a mesa da sala de estar que apesar de pequena estava bem preenchida e decorada com alguns móveis castanhos.

Um sofá em pele castanha, dois cadeirões e uma mesa grande de jantar eram exibidos e brilhavam à luz de um candelabro instalado no meio do tecto.

A mesa de jantar era decorada com uma enorme toalha de mesa branca, macia, em cima desta podiam-se ver dois pratos rasos vazios com os respectivos talheres de prata e copos altos cristalinos.

Quase ao centro podia-se ver uma garrafa de vinho tinto já aberta, a travessa floral da carne assada fatiada complementada com batatas assadas. Ao lado desta havia uma taça de arroz seco branco com um pézinho de salsa no meio. Do outro lado da travessa existia uma outra travessa mais funda com legumes cozidos, ainda a soltar o seu vapor quente.

Juliana ajeitou o melhor que pôde o seu vestido, ainda de pé, aguardando a chegada do seu marido, sempre olhando atentamente para a porta de entrada que ficava do outro lado da mesa.

A porta envidraçada de entrada abriu-se e um homem já nos seus quarentas entra por ali adentro com um enorme sorriso na cara.

Transportava um chapéu preto na cabeça e vestida um enorme casaco preto, aberto que quase se arrastava pelo chão. Na sua mão esquerda agarrava delicadamente um ramo de rosas vermelhas escuras bem seguras por um laço de tecido vermelho.

Juliana dirigiu-se a ele com um sorriso enorme como se não o visse há já vários anos, oferecendo-lhe um enorme abraço, encostando a sua cabeça no peito de Ricardo.

Ricardo estende-lhe as rosas e Juliana fica emocionada, ficando com os olhos brilhantes e aguados, unindo as suas mãos junto ao peito.

– Não acredito... Lembraste-te de mim... Não precisavas de ter comprado nada! - respondeu Juliana a tal oferenda, agarrando as rosas contra o seu peito e cheirando o seu odor frágil e doce.

– Não podia deixar de fazer isto, és demasiado importante para mim, meu amor! - Ricardo tinha a voz um pouco rouca mas grave.

Juliana pousa o ramo num jarro vazio que se encontrava sobre uma pequena mesa de madeira debaixo da janela junto à porta de entrada e volta para Ricardo, repetindo um novo abraço, de olhos fechados e com um enorme sorriso.

– Tiveste saudades minhas, meu amor? - perguntou Juliana nunca tirando a sua cabeça do peito de Ricardo.

– Nem imaginas quantas!

– Eu também!

Ricardo envolve Juliana nos seus braços e ficam por instantes abraçados e de olhos fechados, saboreando aquele momento.

De repente, Juliana solta-se dos seus braços e começa a retirar o enorme casaco de Ricardo, expondo-o num móvel de pendurar guarda-chuvas e casacos junto à porta de entrada.

Ricardo era bem constituído, quase que não parecia quarentão, só mesmo estando perto dele é que alguém repararia que os anos também não o perdoaram apesar de todo o seu jeito jovial e animalesco.

Exibia uma indumentária simples, apenas com uma camisa branca, gravata vermelha sangue seco e umas calças clássicas castanhas, um pouco largas até para ele, completada com uns sapatos bem engraxados, pretos.

Num dos seus dedos podia-se ver uma aliança grossa de ouro que brilhava conforme os gestos dele, Juliana tinha também uma aliança igual, nunca nenhum dos dois ousou retira-la fosse por que motivo fosse.

Juliana agarra a mão direita de Ricardo e encaminha-o para a mesa de jantar, nunca tirando os olhos dele, esperando uma qualquer reacção.

– Tem muito bom aspecto, minha querida! - elogiou Ricardo com um olhar um pouco faminto, esfregando as suas mãos uma na outra.

– Tudo por ti, meu amor! - Juliana dirigiu-se para o outro lado da mesa, sentou-se, ficando de frente para Ricardo, sempre com um enorme sorriso na cara e segurando a cabeça com as suas mãos entrelaçadas debaixo do queixo. - Espero que gostes e que tenha tanto sabor como de bom aspecto.

– De certeza que está óptimo... - Ricardo senta-se na sua cadeira de madeira escurecida e agarra numa tenaz para retirar algumas batatas assadas para o seu prato, de seguida tirou duas fatias de carne que soltaram algum vapor quando se elevaram da travessa.

– Tens aqui legumes, esta mesa é tão grande, eu vou aí levar-tos! - Juliana levanta-se novamente com a travessa de legumes e leva-os a Ricardo. - Tens que os comer, tens de ganhar mais energia depois de um dia cheio de trabalho, meu querido.

– Oh sim, claro, nem imaginas o quão cansado estou e nem estou a falar só de cansaço físico. - ele retira algumns legumes cozidos com outra tenaz e olha para Juliana enquanto que esta retorna ao seu lugar na mesa.

– Acredito mas passou-se alguma coisa de estranho?

– Um dia dos diabos, amor! Primeiro, mal chego aos escritórios, deparo-me com uma má notícia, aliás, horripilante!

 

NESSA MANHÃ

 

Ricardo entra por um edíficio adentro, dando os seus bons dias à funcionária da recepção, uma mulher já de idade e com um ar bastante severo, que tentava esconder por trás dos seus enormes óculos cor de caramelo.

– Bom dia, D. Liliana!

– Bom dia, Sr. Ricardo. Tudo bem? - a sua voz parecia esconder algo triste mas esforçou-se para não mostrar qualquer emoção frágil.

– Passa-se alguma coisa? - perguntou, notando uma ligeira diferença no tom de voz da recpcionista. Geralmente esta mostrava-se sempre bem disposta, muito animalesca e parecia ser uma mulher forte que não mostrava quaisquer medos ou temores.

– Sr. Ricardo, receio ter más notícias... o Sr. Eduardo morreu durante esta noite... - de repente, a recepcionista destemida lança-se num mar de lágrimas e soluços, escondendo as suas feições por trás de um lenço de tecido húmido. Vendo esta situação, Ricardo chegou à conclusão que esta já devia ter estado a chorar desde manhã cedo.

– Como? - perguntou Ricardo incrédulo, colocando as suas mãos sobre a mesa da recepcionista.

– Ele... ele... ele morreu durante... durante... esta noite... matou-se, dizem eles... - dito isto, mais lágrimas se soltaram e a sua voz parecia cada vez mais frágil e empastada.

 

EM CASA DE EDUARDO

 

Um homem demasiadamente bem constituído, já com cinquentas e muitos anos está pendurado por cima de uma cadeira simples de madeira clara, esta encontrava-se deitada no chão.

O pescoço tinha uma corda grosseira em sua volta e estava atada ao tecto.

A expressão facial do homem era horrível, estava com os olhos imensamente abertos, um fio de saliva escorria pelo queixo abaixo.

Apenas exibia uns boxers listados de branco e azul e uma camisa sem mangas muito justa.

Em cima da mesa ao lado da sua cadeira, estava um pequeno papel um pouco amarrotado e esborratado com uma caneta preta de tinta ao lado.

Nesse papel apenas continha uma frase: “Para sempre, meu amor”.

Uma sombra formando uma figura humana dirigia-se para o homem, a passos delicados e vagarosos.

 

DE VOLTA AO ESCRITÓRIO

 

A recepcionista e Ricardo ainda estavam chocados com tal coisa, olhando entre si.

Por um lado a recepcionista escondia a boca por trás do lenço cada vez mais molhado e sujo, por outro Ricardo mordia os próprios lábios, enquanto digeria a notícia.

Eduardo era companheiro de escritório e um grande amigo dele, sempre o acompanhou desde a sua chegada áquele edíficio, ensinou-lhe tudo o que havia para ensinar: como lidar com os outros colegas, como se dirigir ao chefe, onde eram certos locais, métodos simplificados de contabilidade e até como mentir às finanças para próprio proveito – este último Ricardo nunca ousou pôr em prática.

– Mas porquê? Ele parecia estar tão bem! - atirou Ricardo ainda sem qualquer expressão facial, não sabia como lidar com aquilo, ainda por cima tinha acabado de acordar. A cafeína não faria melhor efeito do que aquele triste momento.

– Não se sabe... sempre o ouvi comentar que estava a ter problemas no seu relacionamento, mas nunca avançou com mais pormenores, nem se sabe quem é a mulher. Pareciam apenas problemas de casais, nada de mais.

– Mas ninguém sabe quem é a mulher? - Ricardo inclina-se mais para a frente, olhando sempre a recepcionista nos olhos.

– Não, nunca falou dela a ninguém, apenas dizia que estava farto dos problemas que ambos estavam a ter e que aquilo tinha que acabar... - respondeu a recepcionista gemendo de tristeza e soltando mais lágrimas, afundando-se no seu lenço.

– Hmmm, muito estranho, não terá ela sido a responsável por tal coisa? - Ricardo olha para o lado, muito pensativo, cruzando os seus braços.

– Não me parece, ele enforcou-se... não encontraram vestígios nem nada do que se pareça para haver sinais de luta...

– Que estranho, ele parecia-me muito bem, nunca me falou desses problemas...

– Por vezes, uma pessoa quer guardar-se para si mesma, Sr. Ricardo, nunca conhecemos ninguém a cem por cento, toda a gente vive com uma máscara, nunca sabemos o que está por trás. - a recepcionista tenta manter um tom sério mas pequenas lágrimas cristalinas continuam a correr face abaixo, indo ao encontro do canto dos lábios.

– Isso é bem verdade. Como é que estão a reagir os colegas?

– Alguns ainda não sabem, outros não conseguem se concentrar no trabalho. Amanhã será o funeral, espero que possa ir, aliás, o patrão já disse que amanhã os escritórios vão estar encerrados todo o dia.

– Claro que vou, ele era um grande amigo e fez muito por mim! Que diabo, logo no dia de S. Valentim...

– Bem verdade, Sr. Ricardo, bem verdade... - a recepcionista limpa o seu nariz mucoso e molhado e tenta se concentrar na papelada que tem espalhada por toda a secretária.

– Bem, vou para o escritório, preciso de uns momentos a sós. - atirou Ricardo, virando costas e passando por uma porta que dava acesso a umas escadas em cimento que estavam ligadas ao andar de cima.

– Sim, compreendo, Sr. Ricardo, lamento imenso...

Ricardo já não ouvira estas palavras, ainda estava em estado de choque, não sabia qual seria a melhor reacção a ter.

A empregada guarda um lenço e um pequeno papel dobrado e amarrotado na gaveta do fundo, não queria mostrar o quão chorosa estava naquela manhã e por isso limpou as faces com as palmas das mãos, fechou os olhos e tentou segurar um ar sério, embora fosse dificil.

 

DE VOLTA AO JANTAR

 

– O Eduardo matou-se? Oh meu deus! - exclamou Juliana, petrificada, com um garfo de comida à altura da boca, pousando-o novamente no seu prato recheado com alguma comida.

– É verdade, e nós que pensavamos que ele se encontrava bem e no seu perfeito juízo. As aparências enganam.

– Não sei o que te dizer, amor, lamento tanto, sei que ele era um grande amigo teu! Ainda me lembro de quando ele cá jantou! Foi tão prestável e amigável! Até me ajudou a limpar a loiça!

– Eu lembro-me! Amanhã é o funeral, vou ter que ir.

– Posso ir? Com certeza que queres alguma companhia, meu amor!

– Podes vir! Não sei como irei lidar com aquilo tudo sozinho.

– Sim, claro que vou! Que notícia horrível!

– Pois e ainda para mais ao vir para casa atropelei um cão, não sei como ele não me lixou o carro, a sorte é que passei por cima dele... - Ricardo comia conforme ia falando, muito rapidamente como se quisesse fugir ao assunto.

– A sério? Mas tiraste-o da rua?

– Sim, claro, não sou nenhum monstro...

 

OITO E MEIA

 

Ricardo conduzia o seu carro, havia comprado um ramo de rosas vermelhas e ia neste momento para casa, ao encontro da sua amada.

No rádio do carro transmitia-se uma música jazz composta essencialmente por saxofones e um negro cantarolava uma música alegre e romântica.

– Que voz! - soltou Ricardo batendo com as pontas dos dedos no volante, estando sempre atento à estrada.

Àquela hora era um perigo conduzir, demasiado escuro, pouca iluminação, muita gente e animais na estrada. Para bater com o carro em alguma coisa era num instante, mesmo com Ricardo a conduzir não com muita velocidade.

De repente, as luzes do carro vão abaixo e Ricardo não percebe como aconteceu isso, o carro estava impecável e praticamente novo.

Um cão enorme preto surge na frente do carro, olhando para ele, não se move, fixando sempre o veículo. Mantinha-se em pé não parecia fazer intenções de sair dali e as luzes do carro voltam a ligar-se de rompante

Ricardo não tem tempo de reacção, não avista o animal a tempo e passa por cima dele, parando o veículo alguns metros à frente, realizando uma manobra que fez os pneus chiarem na estrada.

Algumas pessoas que por ali passeavam, assistiram àquele espectáculo todo, estupefactas.

Algumas mulheres levaram as mãos à boca, completamente horrorizadas, outras taparam os olhos aos seus filhos pequenos que estavam quase a chorar e a gritar de tristeza.

– Merda, merda, merda! - resmungou Ricardo ainda dentro do carro batendo com os punhos e cabeça no volante.

Pegou no ramo de rosas vermelhas que caíra ao chão e colocou-o novamente em cima do assento de passageiro.

Saiu porta fora, dirigindo-se ao enorme cão preto que estava deitado, como que adormecido, no chão.

Um fio de sangue começou a fugir do focinho do animal, dirigindo-se na direcção de Ricardo, este não sabia que reacção ter, apenas entrou em estado de choque, levando uma mão à boca.

Um burburinho começou a ser ouvido, algumas pessoas aproximavam-se deles, em choque, mas surpreendidas como é que Ricardo não se despistou nem provocou nenhum acidente devido ao porte gigante do animal.

Ricardo olhou em volta e não sabia o que dizer, pôs-se de pé e arrastou o animal até à sua mala do carro.

O animal pesava toneladas, pensava ele, teve que fazer muito esforço para o conseguir colocar lá dentro, pois ninguém queria ajuda-lo e muito menos tocar no animal morto. Conseguiu por fim coloca-lo dentro da mala, numa posição mórbida. Estava ciente que tinha que o colocar em algum sítio longe dali, não podia abandona-lo e ficar com má fama por aquela zona.

– Está tudo bem, minha gente! Vou leva-lo comigo e dar-lhe uma morte digna! - exclamou, tentando forçar um sorriso, com alguns pingos de suor a surgir na sua testa, com os dois braços no ar. - Podem ir embora, o espetáculo acabou!

As pessoas demoraram a reagir, tal era o choque, mas finalmente viraram costas a pouco e pouco e dirigiam-se para o seu destino, não havia mais nada por ali para ver, o susto e o horror tinha acabado.

Ricardo entrou no carro ainda bastante cansado e a arfar, olhando para o seu espelho retrovisor, ajeitando o cabelo para trás e limpando o suor e cara com um lenço branco.

– Muito bem, muito bem... - disse para si mesmo, tentando encontrar alguma calma.

Ligou o carro e dirigiu-se para o contentor do lixo mais próximo dali, mas não demasiado pois não queria que ninguém o visse a deitar o cão dentro do contentor, já chegou aquele espectáculo todo, não precisava de uma continuação.

Por fim, encontrou um contentor vazio e muito espaçoso, saiu do carro ainda com os faróis ligados, dirigiu-se à mala e retirou o animal que tombou pesadamente aos seus pés e largando um pouco de sangue nos cantos da porta da mala.

– Só me faltava mais isto... - Ricardo estava farto daquela situação, aquele dia estava a ir de mal a pior. Retirou o lenço com que se limpara, do bolso e limpou os restos de sangue da porta.

Abriu o contentor e atirou o lenço lá para dentro, voltou-se novamente para o cão que jazia ali deitado e sereno, de olhos fechados.

Pegou novamente nele com muito esforço, lançando pragas a toda aquela situação, conseguiu finalmente coloca-lo ao ombro e atirou-o para dentro do caixote, arfando pesadamente.

– Pronto, tudo feito, limpo e arrumado, não há cá mais tretas... - disse ele, tentanto respirar a muito custo, com as mãos na anca e enchendo os pulmões com imenso ar.

Dirigia-se para o seu carro quando ouviu umas batidas dentro do contentor, voltou-se novamente para este com ar estupefacto.

– Mas que raio? - Ricardo fez uma expressão de incredulidade, dirigindo-se ao contentor.

Abriu a tampa superiora e olhou lá para dentro, lá encontrava-se o pobre do animal morto, não mexia um único músculo.

– Devo estar a endoidecer... - voltou a fechar o contentor e voltou-se para o carro, debaixo dele reparou que, na escuridão, estavam dois enormes olhos bicudos amarelados a fixa-lo.

Ricardo não se movia, não sabia o que era aquilo mas não lhe parecia nada amigável. Olhou em volta a ver se havia mais alguém a reparar naquela situação, mas não havia um único ser vivo pelas redondezas.

Voltou a fixar o ponto onde estavam os olhos e estes haviam desaparecido, como se tivesse sido uma pura ilusão de óptica. Talvez represálias pelo que fez, embora sem culpa alguma.

 

DE VOLTA AO JANTAR

 

– Bem, ao menos trataste dele, não queremos que alguém ande por aí a espalhar que és algum assassino ou algo do género.

– Era o que mais faltava – Ricardo começara a tossir secamente, como se tivesse bebido alguma coisa ácida.

– Passa-se alguma coisa? - perguntou Juliana mais curiosa do que preocupada, comendo mais uma batata, mastigando-a devagar.

– Não, nada, devo ter comido com demasiada força estes legumes... não comes também?

– Bem sabes que não aprecio legumes, especialmente cenouras e espargos.

– Mas tens couves...

– Não tenho grande apetite, para ser sincera... - Juliana encosta-se para trás, cruza os braços e olha para Ricardo, tremendo um lábio.

Um certo nervosismo assaltou Juliana que ora olhava preocupada para o prato de Ricardo, ora para ele, como se tivesse medo que algo de mau acontecesse.

– Abusaste no tempero do cozido, não? - perguntou Ricardo algo preocupado, levando uma mão ao pescoço, agarrando-o com alguma força e com a outra encheu um copo de vinho, bebendo-a de seguida num só gole.

Sentia algo a arder dentro do pescoço, algo mais forte e picante que a pimenta ou que uma malagueta, algo que parecia consumir as células do seu pescoço.

Sentiu o estômago a roncar e a encolher, soltou um gemido e agarrou-se às bordas da mesa, abaixando-se um pouco e com algumas dores.

Alguns pingos de suor cairam-lhe cara abaixo, estava um pouco vermelho com olheiras algo acizentadas.

Um fio de muco saiu-lhe pelo nariz e deixou escapar um fio de saliva pelo canto da boca.

– Não, que eu saiba não, está até bastante bem condimentado, ou também não és fã disso? - inquiriu Juliana em tom sério e algo zangado.

– Mas que raio fizeste tu?

– Eu? Eu não fiz nada, tu é que sempre fizeste com que eu me sentisse uma valente merda, como se fosse um enorme encargo para ti. Sempre me calei para que tu me amasses mas tudo o que eu dava, não te chegava, querias sempre mais e eu não poderia dar tudo, não era? Chegaste ao ponto de te meteres com outras!

– De que é que falas? - perguntou Ricardo mais calmo e com menos dores, apenas algumas pontadas surgiam a espicaçar o seu fígado.

– Não te lembras de há dias atrás me teres batido porque não me apeteceu fazer o jantar?

 

TRÊS DIAS ANTES

 

Juliana estava no sofã a ler um pequeno livro de bolso já bastante amarelado pelo tempo, este soltava algum cheiro a mofo mas que não a incomodou.

Virava e lia cada linha como se nunca tivesse pegado num livro, bem, também eram poucas as oportunidades de o fazer pois tinha sempre os seus dias preenchidos com a lida da casa, o jantar por fazer, a procura de um emprego minimamente decente.

O livro que se encontrava nas suas mãos era nada menos que um pequeno manual de feitiços e poções, passara de geração em geração na sua família.

Juliana tinha familiares com a morada aberta e tinha outros que estavam de certo modo envolvidos com feitiçaria. Ela nunca manifestou grande interesse por esse caminho, algo céptica, talvez, decidiu abordar o tema e procurou os manuais antigos da avó.

Nenhum familiar directo poderia mexer nestas coisas, portanto, a sua mãe não tinha qualquer hipótese de aprender este tipo de artes, por muito que quisesse. Talvez sentisse inveja da filha por esta ter algo dentro de si, algo fora de normal e por isso sempre a negligenciou o quanto pôde, dando-lhe sempre apenas o mínimo dos mínimos.

Juliana também desejou aprender a manusear esse tipo de objectos pois estava farta do estilo de vida que levava. O Ricardo que conheceu ainda miúda, já não era  o mesmo Ricardo que estava agora ao seu lado, algo mudou e Juliana já tentou entender o que se andava a passar na cabeça dele, mas em vão.

Virou a página e deu de caras com uma poção da morte, nessa página estava desenhado ao centro um caldeirão preto que lançava fumo pelo ar.

Em baixo deste encontrava-se a receita para a confecção do mesmo, coisas caseiras que Juliana arranjaria facilmente.

A porta de entrada abriu-se de repente e Juliana soltou um pequeno grito de surpresa, apressou-se a esconder o livro no meio do peito, por dentro do soutien, ninguém daria conta que ali se encontrava algo tão precioso mas tão perigoso como aquele livro.

Ricardo entrou porta adentro um pouco cambaleante, mas sempre com o mesmo sorriso de orelha a orelha.

Pousou o seu chapéu negro e o casaco no suporte de entrada e dirigiu-se ao sofá, fazendo com que Juliana se levantasse e levasse as mãos ao pé, ainda muito surpreendida e assustada.

– Então, como foi o dia? - perguntou Ricardo quase a soltar uma gargalhada-

– Foi bom, foi bom, muito calmo... - respondeu Juliana ainda com o coração aos saltos e a tropeçar nas próprias palavras.

– Melhor calmo do que stressante, não é verdade? - Ricardo olha para a mesa de jantar que se encontrava vazia e volta a olhar para Juliana. - Não fizeste o jantar?

– Não tive apetite, podemos comer umas sandes ou... - Juliana não conseguiu terminar a frase devido ao forte estalo que Ricardo lhe deu na face.

Ficou com a face cor-de-rosa e a marca de Ricardo demorava a desaparecer. Juliana projectou a cara para o lado devido à força de tal acto, não conseguindo olhar Ricardo nos olhos, apenas soltando algumas lágrimas quer de dor física quer de dor emocional.

– Sempre que aqui chegar, quero tudo pronto. O teu dever é servir-me e fazer o que raio eu quiser! Vocês mulheres são sempre a mesma merda, querem direitos iguais quando não os merecem, fazem o que vos apetece e desrespeitam os vossos maridos! Se eu sei que me andas a tentar calcar os calos, juro que te mando para debaixo da terra, para junto da tua mãe.

A mãe de Juliana havia falecido há alguns dias, soube ela a notícia quando o pai lhe ligou, com uma voz super calma a explicar-lhe a situação, jurando que não tinha nada a ver com aquilo.

Obviamente que Juliana não acreditou no pai, sabia perfeitamente que ele era homem para matar a sua própria mulher.

 

EM CASA DOS PAIS DE JULIANA

 

A mãe e o pai de Juliana, Sra. E Sr. Ribeiro estavam a jantar calma e silenciosamente em frente à lareira.

Viviam numa pequena casa já algo antiga mas tinham tudo o necessário para sobreviverem sem grandes luxos, nunca foram dados a tais coisas, preferindo a modéstia e o voto de pobreza que a religião lhes tentava ensinar.

O Sr. Ribeiro enche o seu copo com vinho tinto caseiro, bebendo-o de um só gole enquanto que a Sra. Ribeiro comia a sopa silenciosamente.

– Não tens vergonha de só fazeres sopa? - perguntou o Sr. Ribeiro, azedamente, fazendo um ar enojado, atirando o seu prato da sopa para o chão.

A mulher deu um salto na cadeira assustada, olhando para ele totalmente vermelha, sabendo perfeitamente o que iria acontecer a seguir.

– Bem sabes que não temos muito dinheiro, temos que poupar. - respondeu-lhe quase num sussurro, com medo que as suas palavras desencadeassem mais um conflito entre eles, acabando em espancamento como acontecia em muitas noites.

– Apesar de tudo, as nossas reformas dão para muito mais do que só para sopa, sopa, sopa.

– Nem pareces tu a falar!

– Tu não me conheces verdadeiramente, quem me dera a mim ter tudo e mais alguma coisa, mas sabes bem que indo para debaixo da terra, nada disto vem connosco! - exclamou ele, apontando para toda a mobília que ali se encontrava.

O Sr. Ribeiro com a sua força e robustez, arrastou a mesa de jantar, já frágil, para o lado e avançou sem mais demoras para a mulher, não admitia que uma mulher lhe falasse daqueles modos, afinal ele é que era o chefe de familia.

Longas sombras de dois corpos formavam-se numa parede, projectadas devido ao fogo da lareira, demonstrando uma cena de pura pancadaria, mais uma naquela casa mas também a mais violenta até àquele momento.

O Sr. Ribeiro esmurrava fortemente e sem dó nem piedade a Sra. Ribeiro.

Grandes murros eram projectados contra a face, barriga e pescoço desta mulher. A sombra pertencente ao Sr. Ribeiro levantou-se e começou a ferir pontapés na barriga da sombra da Sra. Ribeiro, fazendo-a gemer cada vez mais de dores.

Se um jovem mal aguenta tal violência, então uma mulher idosa já a passar dos sessenta anos tinha a morte destinada.

Os gemidos começaram a tornar-se cada vez menos audíveis e a sombra do Sr. Ribeiro apenas estava ali a olhar para a mulher deitada no chão, sem se mover, num um movimento de respiração se notava.

A Sra. Ribeiro acabara de morrer nas mãos de um monstro, monstro que prometeu ama-la junto do voto sagrado que foi quebrado mal pisaram aquela casa.

O rosto do Sr. Ribeira estava pincelado com gotas de sangue do crime gravíssimo que cometera enquanto que o rosto da Sra. Ribeiro se encontrava completamente desfigurado e o seu pescoço exibia enormes hematomas ainda avermelhados pelo calor do corpo.

Nas horas seguintes, o Sr. Ribeiro, lavou a loiça do jantar fatal, enxaguou-a e colocou-a nas devidas prateleiras, tomou um banho calmamente, um duche quente e vaporoso, enquanto que pensava no que havia feito, queimou as suas roupas pintadas de sangue nas traseiras da sua casa, dentro de um balde resistente cheio de gasolina e jornal, e enterrou-as no quintal, aniquilando quaisquer provas desse crime.

Ligou à policia local e colocou-os a par da situação, muito alarmado: dissera que chegou a casa e que encontrara a mulher naquele estado, que não viu ninguém em sua casa e que não suspeitava de nenhum vizinho.

A polícia chegou ao local com uma ambulância, examinou o corpo e encaminhou-o para análises, não fossem mais pistas estarem escondidas.

Um polícia, ao ir-se embora, examinou o Sr. Ribeiro de baixo para cima, fixando o olhar nos olhos dele, como se suspeitasse que o Sr. Ribeiro escondia alguma coisa.

 

 

DE VOLTA AO JANTAR

 

Juliana estava cada vez mais revoltada e chorava descontroladamente ao relembrar-se dos recentes acontecimentos.

– Queres que eu vá para junto da minha mãe? Então tu vais primeiro, grande cabrão! Tu e as tuas amantes?

– Tu és louca! Eu não tenho amantes! - Ricardo respirava pesadamente, levando a mão esquerda ao pescoço de vez em quando, o ardor era cada vez mais e o fígado parecia que ia explodir a qualquer momento.

– Eu? Louca? Ou serás tu o louco? Tu e outros tantos que tratam as mulheres como umas cadelas! Fodem com elas, fazem promessas de amor e depois usam-nas como lixo!

 

UMA SEMANA ANTES

 

Ricardo estava no escritório e já era quase meia-noite, o trabalho nesse dia estava a ser puxado e não via como havia de se livrar dele.

Preenchia impressos e mais impressos e a secretária parecia que fazia nascer novos impressos, estes não tinham um fim.

Estava cansado, com fome e irritado. Bebera vários cafés durante a tarde e a noite para se manter desperto mas o sono estava a bater cada vez mais forte no seu olhar até que adormeceu, estatelando a cabeça contra um impresso que ainda estava meio preenchido.

Acordou com a porta do seu escritório a abrir, assustando-se e tentando pôr as ideias em ordem, já nem se lembrava que ainda estava por ali.

Olhou para a porta e alguém jovem, feminino entrou por ali adentro vagarosamente.

Uma jovem rapariga de vinte e poucos, de cabelo avermelhado e com um fato constituído por uma saia curta e um casaco surgiu à sua frente.

Andava sobre os saltos de agulha muito sedutoramente enquanto que exibia um sorriso enorme naquelas lábios vermelhos.

– Quem é você? - perguntou Ricardo surpreendido com tal figura no seu escritório àquela hora.

– Não precisas de saber o meu nome, Ricardo. - a figura avançou para a secretária e caminhou sobre os joelhos para Ricardo, agarrando-o de seguida pela gravata e dando-lhe um beijo na boca.

Ricardo ainda estava perplexo a tentar perceber aquela situação que mais parecia ridicula do que sedutora.

– Desculpa, mas não posso fazer isso...

– Eu sei que queres, estás farto daquela mulher que quer lutar pela igualdade feminina, ela já não vale a pena, podes ter-me a mim e eu serei a tua escrava, uma verdadeira amante na cama e uma perfeita dona de casa. - a rapariga riu-se e sentou-se no colo de Ricardo, abrançando-o e beijando.

Este não lutou contra a situação, de certa forma aquilo estava a agradar-lhe.

Deixou-se levar. A rapariga desapertou-lhe a camisa e as calças, deixou-o domina-la, retirando-lhe a saia justa e curta.

Desapertou o soutien por trás e exibiu os seus seios para Ricardo, pegando nas mãos dele contra eles, ambos arfando de excitação. A rapariga encostou-se ainda mais contra o peito dele, esticou um braço longo e pousou um pequeno papel amarrotado no bolso do seu casaco que se encontrava pendurado nas costas da sua cadeira.

Ricardo beijava-lhe os seios enquanto que esta sorria para a parede por trás dele até que afastou a cabeça dele para trás e a cara da recepcionista apareceu em vez dela. Ele deu um grito de horror e dava sinais de que ia vomitar.

A recepcionista ria-se que nem uma louca, afagando-lhe a nuca.

– Contente, amorzinho? - ela aproximou a cabeça da dele, pronta para o beijar novamente até que Ricardo acordou.

Ele acordou com a testa pintada de preto, confuso e desorientado, olhando para todo o escritório.

Estava tudo como antes de adormecer, já não havia rapariga sensual nem nenhuma recepcionista.

– Que puta de pesadelo... - sussurrou ele para si mesmo, ajeitando a gravata e recompondo a respiração que ainda se encontrava acelerada devido ao susto que apanhou.

 

Chegou a casa ainda com a testa pintada de preto devido ao facto de ter adormecido sobre tinta fresca num impresso.

Juliana ao vê-lo deu uma enorme gargalhada e apressou-se a limpar a testa com um lenço de tecido molhado, oferecendo-lhe um beijo enquanto que o agarrava pelo rabo.

– Muito trabalho?

– Nem imaginas o quanto...

 

Ricardo havia adormecido rapidamente no sofá, ainda vestido e sem jantar.

Juliana apressou-se a despir-lhe pelo menos o casaco e deixou-o estar a dormir, não queria incomoda-lo pois imaginava o quão cansado ele deveria estar.

Ao pendurar o casaco no próprio ombro, um papel caiu do bolso, fazendo a curiosidade de Juliana despertar. Agarrou-o e abriu-o, apenas uma frase se encontrava escrita: “Para sempre, meu amor”. Juliana ficou escandalizada com a situação mas não fez qualquer tipo de barulho, levando apenas uma mão à boca enquanto que as lágrimas lhe subiam aos olhos. Atirou o casaco para o chão e apressou-se a correr escadas acima para o seu quarto, sempre com o papel agarrado na mão.

Atirou-se para o chão, na escuridão do quarto e ficou ali toda a noite a chorar e a soluçar enquanto que se perguntava o porquê daquilo.

Dirigiu-se à cama e ajoelhou-se, agachou-se e puxou para cima uma caixa algo grande e preta, feita em madeira e revestida a couro. Abriu a mala com uma chave em bronze que estava guardada na gaveta do fundo da cómoda.

Dentro da mal havia um pequeno livro de feitiçaria e de poções mágicas, uma espécie de varinha que mais parecia um ramo de uma árvore, envernizado com uma pérola na ponta, uma pequena bola de cristal que cabia perfeitamente numa só mão, um pequeno caldeirão pesado e bastante sujo e vários saquinhos de tecido com diversos tipos de pós mágicos.

Juliana olhava para o seu interior com uma expressão grave.

– Se realmente funcionar, a brincadeira acabará... - sussurrou ela, não pestanejando uma única vez.

 

DE VOLTA AO JANTAR

 

– Eu nunca te traí! - gritou Ricardo, fazendo um grande esforço com a voz, cada vez mais fragilizado.

– Então e o papelzinho de amor? Não significou nada?

– Que papel?

– “Para sempre, meu amor”! Julgas que sou uma estúpida? Que sou mais uma dessas mulheres que se sujeitam a tudo a que o homem quer e deixam-se levar pelas falinhas mansas e promessas que não conseguem cumprir? Aposto que não foi só uma! - dito isto, a lareira acendeu e explodiu em chamas.

Juliana estava irada e não parava de olhar para o marido sofredor, não sentia qualquer tipo de compaixão pela situação em que ele se encontrava, queria faze-lo sofrer tal como ele o fez sem olhar a meios e sem pedir desculpa por todos os danos causados.

– Eu nunca faria tal coisa... - Ricardo começara a chorar, cheio de remorsos, lembrando-se do mal que lhe causou.

Sabia que havia procedido mal com ela mas algo dentro dele não dava para controlar. Pensara que tinha sonhado com a rapariga sensual e que não passara de apenas mais um pesadelo causado pelo stress e cansaço do trabalho.

Juliana avançou a passos largos para ele, colocou-se atrás do corpo do marido, agarrando-lhe pelo cabelo, erguendo a sua cabeça fanzedo-o gritar ainda com mais dor.

– Eu também não te quero mal mas já chega! - sussurrou-lhe ao ouvido com um leve sorriso demoníaco, a sua expressão era de puro ódio e não se deixaria levar mais pela conversa dele.

Retirou uma faca afiada e reluzente de dentro do vestido com a mão direita, que havia estado agarrada por dentro do soutien, entre os seus seios e ergueu-a acima da sua cabeça.

– Espero que nunca te arrependas do que estás a fazer! - gemeu o marido com fortes dores, o seu coração pulsava e parecia querer explodir dentro dele.

Num último golpe, a rapariga sensual que havia estado no escritório com Ricardo uma semana antes cortou-lhe a garganta, jorrando enormes quantidades de sangue para a frente. 

Largou a cabeça dele e estava agora revoltada, irada e chorava, ofegante.

Juliana enfiou-lhe a faca diversas vezes nas costas enquanto que gotas pincelavam a sua cara, sempre grunhindo pragas contra Ricardo até que cedeu, caiu de joelhos e soluçava tristemente por toda a vida maldita que levou até àqueles dias.

Não teve paz em casa dos pais e sofreu ainda mais nas mãos de outro homem.

A campainha da porta de entrada tocou, Juliana olhou para ela assustada sem saber o que fazer.

Olhou para o marido deitado na mesa de jantar e soluçou ainda mais, qualquer coisa que dali viesse da porta de entrada não podia ser pior do que a vida que levou e por isso ficou decidida em abrir a porta e exibir o espetáculo de sangue que realizou com as próprias mãos.

Espreitou pelo orifício da porta e viu uns enormes olhos amarelos numa sombra.

Recuou dois passos para trás e levou um braço à cara, sempre a chorar e a soluçar, ainda com a faca ensanguentada na outra mão.

A porta abriu-se sozinha rapidamente e na frente de Juliana estava a recepcionista, Liliana, a olhar para ela com um sorriso amigável mas agora com trajes compridos e negros, fazendo lembrar uma verdadeira viúva.

– Minha querida, estás muito triste, não fiques assim pois não vale a pena... - disse a recepcionista nunca largando aquele sorriso apelativo.

– Por favor, não diga nada a ninguém...

– Não direi... - Liliana avançou lentamente em passos rasos para o local onde estava Ricardo e examinou-o. - Bem, não podia estar mais morto.

– Eu tinha que o fazer, tem que compreender...

– Não sou ninguém para te julgar. Fizeste aquilo que muitas mulheres nunca ousaram fazer por medo, admiro-te a coragem. A tua avó deveria ter-te ensinado melhores maneiras de como fazer desaparecer um corpo... aquele livro é um tanto ridículo senão nunca terias chegado a este ponto.

– Como sabe da minha avó?

– As bruxas conhecem-se umas às outras, mesmo que nunca se tenham cruzado. Mas agora chegou a tua hora, não poderás ter um filho nunca, és a última da tua linhagem e decidiste matar com as tuas próprias mãos em vez de tratar do assunto à nossa maneira, a menos suja e horrível. A poção que fizeste, sim, o pó que elaboraste, eu sei da existência dele e acredita que bastaria para tratar deste rapaz. – pousou a sua mão sobre a cabeça de Ricardo, afagando-o. - Terei que te levar, não podes ficar aqui ou sofrerás horrores na prisão.

Juliana caiu de joelhos e soluçou ainda mais, escondendo a cara com vergonha.

Liliana avançava silenciosamente e de braços abertos para Juliana, elevando o seu lenço enorme preto que tinha sobre os ombros, fazendo lembrar um enorme morcego humano. Abaixou-se para Juliana e dentro da casa começaram a surgir enormes chamas que consumiram todo o seu interior causando o pânico a quem estava no exterior e assistia àquele espetáculo.


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