Casa

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Status: Finished  |  Genre: Horror  |  House: Booksie Classic
Joel muda de residência e descobre o paranormal na sua nova casa.

Submitted: November 24, 2013

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Submitted: November 24, 2013

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NUMA QUALQUER CASA

 “Passa-se aqui algo de muito estranho, já não sei para onde me virar… Provavelmente são coisas da minha cabeça, imaginação fértil e tal… Já não durmo em condições há bastante tempo, nem parece que estou feliz por me ter visto livre da minha família…” – escreve Joel no seu portátil já algo antigo e um pouco gasto.

Joel era o típico “nerd” de óculos grossos, cabelo despenteado e negro e com uma leve barba a despontar, ninguém lhe daria mais do que dezoito anos devido à sua magreza e estilo franzino mas na verdade Joel tinha já vinte e três anos mas a sua mentalidade gritava como alguém nos seus trintas e muitos.

Céptico por natureza, baseava-se em estudos científicos para justificar o que quer que seja, nada mais valia para ele do que uma boa prova devidamente justificada pelas ciências para comprovar tudo e mais alguma coisa. E se a ciência não podia provar, então é porque algo era mentira.

Neste momento encontrava-se bastante nervoso, com alguns pingos de suor a escorrerem-lhe pela testa abaixo, com a mão direita no rato a tremer como se lhe quisesse fugir. A sua cara oval demonstrava umas feições bastante amedrontadas e desta vez não havia prova científica que o pudesse ajudar.

A sala de estar onde se encontrava estava bastante iluminada por uma só lâmpada pendurada no tecto, apenas existia um sofá, uma mesa quadrada de madeira falsa e duas cadeiras (estando ele numa delas). Do seu lado direito encontrava-se uma porta de vidro enorme com acesso directo a uma varanda pequena exterior que não tinha iluminação.

Joel fecha o portátil e dirige-se a essa mesma varanda, abre a porta com bastante força, fazendo-a chiar e acende um cigarro com alguma dificuldade, devido ao nervosismo, no meio da escuridão.

Encara a paisagem, amedrontado, mas agora também bastante pensativo. Precisava daquela brisa nocturna que por ali passeava discretamente.

Á sua frente encontrava-se uma paisagem citadina que despoletava por entre árvores gigantes que pareciam monstros criados pela iluminação nocturna, no céu viam-se raras estrelas devido à poluição luminosa.

Olhou para trás, para a sala de estar, como se algo por ali passeasse, algo que ele já andara a recear há já vários dias, algo nada cientifico e sem qualquer lógica.

 

QUINZE DIAS ANTES

- Continuo a achar que a casa deve ter alguma coisa que não me irá agradar… - desabafou Joel encarando uma rapariga de longos cabelos avermelhados com um certo “freak style” enquanto andavam calmamente por uma rua de uma só via, fazendo mudanças para a nova vida de Joel.

- Não sejas parvo, de certeza que deve estar tudo bem com ela… Sim, é um pouco estranho o preço super baixo que irás pagar por ela mas com certeza que não deve ter nada por aí além…

Ambos transportavam duas caixas de cartão com tralhas leves para decorar a nova casa, aliás, apartamento.

Joel conseguira fazer negócio com uma senhoria, alugara o apartamento por um preço ridículo, algo difícil por aqueles lados visto que os acessos ao centro da cidade estavam facilitados com todo o tipo de transportes.

- Oh de certeza de que não irei durar muito tempo por lá, estou com a leve sensação de que se passa algo de errado.

- Meu, apenas arranjaste um apartamento por uma pechincha mensal, não te preocupes.

- Juliana, um apartamento completamente mobilado numa zona destas por cento e cinquenta euros com despesas de electricidade incluídas dá a entender que algo de errado se passa aqui. – lançou ironicamente.

- Oh, de certeza que a mobília é alta merda e por isso é que vais pagar tão barato… ou então pagas um balúrdio na factura mensal da água…

- Olha bem que não tomo banho no mês seguinte! – exclamou Joel e ambos deram uma enorme gargalhada.

- Até parece que já não o fazes, meu!

 

Entraram no prédio do apartamento novo de Joel e subiram até ao quarto andar de elevador.

A fechadura de entrada do prédio era teimosa e por duas vezes Joel deixou escapar um pontapé até que finalmente ela cedeu rangendo no mármore cinzento do chão.

O elevador que os levava para cima era bastante assustador: muito pequeno para duas pessoas, com o chão feito de mármore preto brilhante, com pouca iluminação e lançava enormes ruídos como se de unhas afiadas num quadro se tratassem. Para além do mais, este parava sempre no quinto andar onde ninguém residia e onde ninguém poderia entrar a não ser a senhoria – ordens dadas pela mesma ao telefone.

Joel nunca vira a senhoria, havia sempre alguém que vinha ter com ele para a representar e de todas as vezes essas pessoas eram bastante peculiares, falavam o mínimo e olhavam sem pestanejar para Joel, fazendo-o sentir que a sua alma já havia sido roubada várias vezes.

 

ENTREGA DAS CHAVES

Joel esperava por alguém á porta de entrada do seu prédio, como combinado com a senhoria. Não sabia quem aguardar e por isso sentou-se no degrau fumando um cigarro.

Aquela zona era um pouco estranha, cheia de miúdos que mais pareciam vendedores de droga, idosas que se lembravam de gritar ao vento e animais que atravessavam para o outro lado da estrada pouco antes de chegarem ao prédio onde Joel iria viver.

Uma figura masculina de cabelo vermelho e totalmente vestido de preto parou em frente a Joel, esticando-lhe um braço e entregando-lhe um conjunto de três chaves: para o correio, para a porta de entrada do prédio e outra para a porta do apartamento.

Joel levanta-se sem demoras e cumprimenta a figura que não lhe dá qualquer resposta de volta.

- Hmmm… primeiro queria ver a casa, se fosse possível… - disse Joel um pouco incomodado com aquele silêncio e olhando para as suas chaves.

A figura não hesita, abre a porta e espera que Joel o siga, sempre em silencio. Subiram o elevador até ao quarto andar, a figura abre a porta de entrada e um cheiro a limpeza inundou-lhes o nariz.

Joel avança para dentro e mira todo o hall, exclamando um “WOW” de surpresa. O hall era enorme, tendo apenas um pequena prateleira em vidro e um jarro de flores secas do seus lado direito, dava acesso directo à cozinha que estava bem à vista com a iluminação natural do dia.

Em frente à prateleira de vidro tinha uma entrada sem porta para a sala, sala enorme e alaranjada.

Antes de chegar à sala, exisitiam umas escadas para o andar de cima, faziam imenso barulho quando alguém as utilizava, o que incomodava bastante Joel.

Em cima existiam três quartos, cada um com a sua própria casa de banho. Dois deles tinham a porta aberta e o dia iluminava-os, o terceiro estava fechado à chave e um cheiro pouco desagradável saía dele por entre frestas. Joel aproximou-se desse para o tentar abrir.

- Esse está encerrado, ninguém pode entrar nele, penso que a Senhora já lhe disse isso. – disse a figura silenciosa, em tom seco e sério, olhando sempre para o chão, mas sempre com uns enormes óculos de sol escuros.

- Oh, desculpe… - desculpou-se Joel retirando imediatamente a mão da maçaneta e dirigindo-se para o quarto do meio. – Vive mais alguém por aqui? – perguntou apontando com o olhar para o outro quarto aberto.

- Penso que já sabe que este apartamento é todo seu… por isso, não… - respondeu a voz seca, Joel já se estava a fartar daquele individuo assustador.

- Oh porreiro… mas explique-me… porquê só cento e cinquenta euros? – perguntou ele, já ambos descendo as escadas para a entrada. A figura fecha a porta e dirigem-se para o elevador, não respondendo como se não tivesse ouvido nada. – Oi?

O elevador ia já no segundo andar quando a figura o trava no botão de Stop.

- Há coisas que não lhe posso explicar, mas de certo que não é por nada especial…

- Não morreu ninguém, certo?

A figura desata a rir ás gargalhadas e retira os óculos. Os seus olhos eram de um azul pálido, penetrantes, parecia um homem cego quando não o era.

- Para já, não. Não se preocupe, jovem… - troçou aquela voz seca e rouca.

 

DE VOLTA AO ELEVADOR

Quando o elevador parou no quarto andar, o visor que indicava o andar apagou-se e surgiu de volta com o número seis a vermelho, sempre a piscar.

O elevador não abriu portas no tempo devido e os dois jovens ficam a olhar para o visor com um ar de surpresa e de susto. Juliana começa a carregar em todos os botões mesmo estes não tendo qualquer reacção.

- Porque é que isto não abre? – perguntou Juliana enquanto carregava no botão de abrir portas diversas vezes, quase esmurrando.

- Eu não disse? Eu disse que o apartamento era bom demais.

- Oh, não vais começar com um dos teus ataques de claustrofobia, pois não?

- Bem sabes que isso é um problema bastante sério… - respondeu Joel encostando-se para trás, mirando o tecto, engolindo em seco, tentando se controlar agarrando-se ao que podia.

A luz do elevador apaga-se e Juliana dá um grande grito de terror, tentando novamente carregar em todos os botões.

Um som que fazia lembrar um giz a gemer num quadro foi ouvido no tecto, fazendo os jovens olharem para cima, mais aterrorizados e petrificados.

- Foda-se, agora isto? Parece bruxedo! – dispara Juliana voltando a carregar em todos os botões que conseguia alcançar.

Juliana retira o seu telemóvel de um dos bolsos do seu casaco e tenta iluminar a divisão.

Uma face assustadora e totalmente pálida surge com a iluminação do telemóvel. Uma face com uns olhos enormes negros e caninos afiados, uma face que faria gelar qualquer um que a enfrentasse, tal face encarou apenas Joel por uma questão de segundos e tornou a desaparecer.

Joel dá um pequeno grito e encosta-se ainda mais à parede do elevador, elevando a cabeça como se quisesse que esta se desprendesse do pescoço.

- What? – gritou Juliana olhando para Joel, assustada por ver o seu amigo em pânico.

- Aquela cara… - apontou Joel para a porta fechada do elevador.

- Que cara? – Juliana olhou para o local onde Joel apontava e tentou encontrar alguma coisa que supostamente deveria estar ali.

- Não viste? – Joel levou a mão à cara enquanto respirava pesadamente.

- Eu não vi nada! Não estás a fazer sentido!

- Estava ali… estava ali a cara mais assustadora que já vi…

- Meu, estás a delirar! Isso da claustrofobia está a atrofiar-te todo!

A luz volta a acender-se e ambos olham para o tecto, cerrando os olhos devido à sensibilidade para com a luz.

- Juro que estava ali algo!

A porta do elevador decide-se finalmente a abrir e Joel pega na sua caixa de cartão e apressa-se a abrir a porta do seu apartamento.

Juliana seguiu-lhe o rasto e dirigiram-se para a sala que estava bastante iluminada pela luz do dia que penetrava por trás das cortinas pouco grossas da porta de acesso à varanda. Ambos sentam-se no sofá em frente à lareira, tentando acalmarem-se e tentando encontrar uma explicação plausível para o que aconteceu no elevador.

- Queres um copo de água? – perguntou Juliana colocando a sua mão no ombro do amigo, vendo este a encostar a cabeça para trás, pesadamente e de olhos fechados.

- Não, obrigado… provavelmente foi alguma coisa que imaginei devido ao pânico… já sabes como é que eu sou quando estou em sítios demasiado pequenos e fechados.

- É provável, vais ver que mal te relaciones com o sítio que isso não voltará a acontecer. – Juliana levanta-se e olha em sua volta, admirando a enorme sala em que se encontrava, com um pequeno sorriso – Olha que a casa não é mesmo nada má! Tiveste muita sorte em encontra-la!

- Espero bem que sim! Pena ser demasiado grande para uma pessoa.

- Quantos quartos?

- Três mas um deles está fechado e a senhoria já disse que não tinha a chave, que a antiga rapariga que aqui viveu levou a única chave existente e que ela também não estava para se chatear… pessoas ricas dá nisto.

- Queres que durma cá esta noite? Posso dormir no outro quarto se quiseres…

- Queres? Por mim pode ser, assim bebemos uns copos que bem que precisamos!

 

22:00

Juliana e Joel fizeram um bom banquete constituído por batatas assadas e um frango pequeno, comendo tudo como se já não vissem comida há anos e beberam três garrafas de vinho branco, preparando-se para beber um pack de quatro cervejas.

- Aguentas mais isto? – perguntou Juliana muito sorridente apontando a Joel um charro que retirou da sua caixa metálica do tabaco.

- Tu tens disso? Amo-te, pá! – exclamou Joel atirando-se do sofá para o chão com uma cerveja na mão.

Juliana acende o charro enquanto sorria por todo o lado, olhando para Joel que se encontrava deitado no chão de olhos fechados.

 

Eram quase meia-noite quando cada um se dirigiu para um quarto diferente, bastante alcoolizados e sem parar de se rirem.

Juliana entra num quarto simples, apenas com uma cama, uma cómoda e um cadeirão.

Arrasta-se para a cama sempre aos ziguezagues e a rir-se de si mesma, pensando no quão ridícula aquela situação lhe parecia. Atira-se para cima desta e dá uma enorme gargalhada enquanto mira o tecto escuro.

 

Duas da manhã e já ambos dormiam que nem duas estátuas. Juliana dava voltas na cama, como se estivesse a ter um pesadelo até que acorda com uma enorme dor de cabeça.

- Porcaria de ressaca… - resmungou para si mesma.

O som de água a escorrer de um chuveiro começa-se a ouvir do outro lado, como se alguém estivesse a tomar banho naquele momento e Juliana senta-se na cama para ouvir melhor, achando que era absurdo o facto de Joel se lembrar de tomar banho àquela hora.

- Por amor de Deus… - Juliana leva uma palma de uma mão à cara e ri-se baixinho.

No outro quarto, Joel dormia profundamente, remexeu-se na cama quando ouviu o som do chuveiro mas voltou a adormecer, estava demasiado bêbedo e cansado para fazer ou pensar no que quer que seja.

 

No dia seguinte acordaram ambos sob efeito de ressaca, estavam nas cadeiras da sala e encaravam o chão, perdidos nos seus próprios pensamentos, esquecendo-se da presença de um do outro naquele momento até que Juliana desperta, mira o relógio no pulso e apressa-se a levantar.

- Joel tenho que ir, estou muito atrasada para o trabalho… - pega na sua mala de ombro, dá dois beijos na cara de Joel fazendo-o despertar e sai a correr porta fora.

Joel ainda continuou ali sentado a olhar para o chão reflectindo naquilo que se passou no dia anterior.

Do nada o som de uma campainha começa a tocar, fazendo Joel dar um salto da cadeira bastante assustado.

- Mas que raio? – pensou ele dirigindo-se para onde vinha o som.

O som vinha da cozinha, mais propriamente do forno e não fazia questão de parar.

- Como raio é que o forno se ligou sozinho? – Joel consegue finalmente desligar o som num botão, agora mais calmo – Esta casa é no mínimo curiosa…

 

Joel conseguiu um trabalho num restaurante de fast-food, trabalhava a tempo inteiro e gostava do que fazia. Era um trabalho recente, o que o motivava mais pois andou diversos meses em busca de um trabalho, o que não foi nada fácil, pois levou com imensas respostas negativas e estava quase a perder a esperança, envolvendo-se e afagando as suas tristezas e desilusões no álcool, tabaco, drogas e também nas inúmeras tentativas de suícidio.

Estava farto da família, que estava sempre a discutir e tentavam envolve-lo nas suas disputas quando o que ele mais queria era paz.

- O que vai desejar, minha senhora? – perguntou Joel com um sorriso de orelha a orelha vestido com um pólo verde escuro e um boné da mesma cor.

A cliente que se encontrava do outro lado do balcão tinha um aspecto severo, era atarracada e vestia uma roupa simples preta que ia do pescoço até aos joelhos, com um xaile negro axadrezado a apertar-lhe agudamente o pescoço. Tinha um enorme gancho de plástico preto a prender-lhe o cabelo no cimo da cabeça.

Os seus olhos eram pequenos, aguçados e pareciam querer entrar na mente das pessoas.

- Cuidado com a tua forma de viver! – respondeu-lhe a senhora muito rispidamente como se se tratasse de uma serpente prestes a atacar.

- Peço desculpa mas não percebi… - Joel ficou confuso, tentando perceber se o que ouvira se era real ou não, enquanto segurava um enorme pão estilo baguete.

- Brevemente perceberás…

A senhora dá um pequeno pulo mas sempre mantendo-se no mesmo lugar, olha confusa para Joel e dá um enorme sorriso, um sorriso acolhedor e doce.

- Meu querido, queria uma sandes vegetariana, por favor e uma água natural. – a senhora apressa-se a remexer na sua grande mala de ombro e retira um pequeno porta moedas de couro preto.

- Desculpe, a senhora disse qualquer coisa há pouco mas não percebi o que quis dizer…

- Como? – a senhora parecia agora confusa mas sempre a sorrir, mostrando os seus branquíssimos dentes falsos. – Meu querido, eu não te disse nada… Apenas pedi uma sandes.

Joel olhou confusamente para a senhora, tentando perceber a lógica da situação enquanto que esta não parava de lhe sorrir enquanto lhe estendia uma nota de dez euros.

- Peço desculpa, devo estar realmente muito confuso… Deve ser do trabalho.

- Não tem mal, meu amor, quando tinha a tua idade, o trabalho também me deixava dessa maneira por vezes. Vá, pega os dez euros e paga tudo, fica com o troco.

- Oh obrigado, minha senhora.

“Felizmente em breve tudo acabará em bem” – Joel ouve isto dito por uma voz calma e serena, muito diferente daquilo que ouviu anteriormente.

Olha em volta para perceber de onde é que veio aquela voz mas não conseguiu uma boa justificação para o que acabou de ouvir. Entregou a sandes e a garrafa de água à senhora e esta acenou-lhe carinhosamente enquanto se dirigia para uma mesa.

 

Dez da noite e Joel já se encontrava deitado na cama sem cobertores e semi-nu, encarando o tecto enquanto pensava naquele dia. Quem raio seria aquela mulher? De onde veio a voz fantasmagórica que ouvira de tarde? Joel não conseguia pregar olho com estas dúvidas a assombrar-lhe o pensamento, dava voltas e mais voltas na cama mas as palavras que ouvira ecoavam-lhe na mente e não pareciam querer desaparecer até que ouviu um enorme barulho de algo a bater na janela do seu quarto.

Joel levantou-se rapidamente e observou a sua enorme janela que também dava acesso a uma varanda.

Mirou o relógio de cabeceira e viu que já eram quase três da manhã e que ainda não tinha pregado olho. Levantou-se da cama e dirigiu-se à varanda pé ante pé, calmamente e o mais silenciosamente possível, como se tivesse medo de acordar algum vizinho.

Estava com uma expressão apática e algo assustada, ainda pensava nas palavras ditas de tarde e agora misturava nos seus pensamentos aquele estrondo que ouvira há segundos.

Abriu a janela de vidro da varanda, sentiu um enorme arrepio devido ao vento que se fazia sentir e olhou chocado para o chão, levando as mãos à boca enquanto arregalava os olhos com verdadeiro horror. Á sua frente, no chão, estava um pequeno pombo preto com o pescoço partido e com algum sangue à sua volta.

- Como raio…? – Joel não acabou a pergunta que ia fazer a si mesmo, devido ao momento de horror que estava a sentir naquele momento.

Decidiu que iria deitar o pombo ao lixo na manhã seguinte, não tinha coragem de o fazer naquele momento, ainda estava em estado de choque pois Joel era um grande defensor dos animais e uma situação daquelas, para ele, era no mínimo surreal de assistir. Dirigiu-se de volta para a cama, cobriu-se com o cobertor e deitou-se em posição fetal de olhos ainda muito arregalados.

 

Na manhã seguinte, Joel dirigiu-se ao contentor do lixo mais próximo com o pombo morto no seu quarto dentro de um saco de plástico, Joel estava apático e desistiu de entender o que se passava por ali, aquilo tudo era demasiado para a cabeça dele, o elevador, o som do chuveiro, o forno ligado sozinho, a senhora do local de trabalho, a voz sinistra e agora um pombo que morreu a meio da noite no seu quarto.

Não passavam de coincidências estranhas e mórbidas, pensava ele, coincidências estúpidas e que decidiram aparecer todas juntas.

Coincidências que não faziam qualquer sentido pois Joel é das pessoas mais cépticas que podem haver, nada daquilo tinha lógica ou fazia sentido. Provavelmente o elevador estava mesmo com alguma avaria, notou que existiam enormes falhas de electricidade naquele prédio, ouviu alguns vizinhos queixarem-se da falta de luz. Quanto ao chuveiro, podia muito bem ser Juliana a tentar ficar sóbria e decidiu-se refrescar àquela hora. O forno devia estar a funcionar mal e os botões deviam estar com algum problema técnico. A senhora do local de trabalho devia ser apenas louca ou sofrer de bipolaridade. A voz devia ter sido apenas uma ilusão, ainda estava de ressaca. O pombo devia andar desorientado ou assim e pronto… Mas mesmo assim aquilo tudo não fazia muita lógica na cabeça de Joel.

 

SETE DIAS ANTES

Nessa noite, Joel decidiu dormir no sofá da sala.

Estava deitado no sofá enquanto lia o livro “Odeio-me e Quero Morrer” – uma biografia sofre Kurt Cobain e ouvia o álbum House Of Secrets de Otep no seu mais recente aparelho de mp3. Por diversas vezes deu-lhe a sensação que alguém ia entrar na sala, que se encontrava fechada à chave, fazendo-o olhar para a porta com algum receio.

Joel começava seriamente a pensar que estava a dar em maluco, já não dormia em condições desde que ali chegou, dormia apenas algumas horas e passava o resto da noite a tentar pregar olho. Em algumas noites pensara ter ouvido alguém a rir-se e água a cair de um chuveiro como se alguém estivesse a tomar banho, quando ali, naquela casa, não vive mais ninguém.

Joel tentou afastar esses pensamentos e manter-se atento á leitura, não queria pensar mais nessas coisas, nada tinha lógica e portanto não queria perder tempo com isso.

O mp3 deixou de funcionar sem mais nem menos e Joel atirou-o para o chão, um pouco chateado, não conseguia distrair-se com nada mas tentou mais uma vez prestar atenção ao livro, o que era muito difícil. Do nada surgiu uma gota de sangue na pagina do livro que Joel estava ler, deixando-o assustado. Levou um dedo à gota de sangue e viu que se tratava disso mesmo, que não era mais nenhuma ilusão, que era bem real. Sentiu o seu nariz a arder levemente, levou uma mão a ele e reparou que esta estava a encher-se de sangue, Joel estava a deitar imenso sangue pelo nariz. Levantou-se, atirou com o livro também para o chão e foi à cómoda da sala e retirou de uma das gavetas um pouco de algodão, enfiando-o no nariz para que este parasse de deitar sangue.

- Juro por Deus que estou a ficar maluco!

Dirigiu-se para a varanda, tentou acender um cigarro mas do isqueiro saiu uma pequena bola de bolo, como se tivesse sido cuspida dali.

- Nem a merda de um cigarro consigo fumar em condições. Não querem mais nada? – perguntou ele para si mesmo.

De repente a porta da varanda fechou-se sozinha violentamente, deixando Joel ainda mais assustado enquanto a encarava.

- Foda-se. – foi a única coisa que conseguiu dizer.

Abriu a porta, deitou-se no sofá de luz ligada e tentou adormecer, estava saturado daquilo tudo, não dava mais para estar ali mas também sabia que dificilmente encontraria um sítio barato e decente naquela altura.

 

ACTUALMENTE

Joel deita a cabeça sobre o teclado do seu portátil depois de actualizar o seu blogue que mais parecia servir como diário online para as suas experiências com aquele apartamento, ele queria que aquilo tudo foi documentado para que cépticos como ele pudessem ver que havia algo mais que a própria ciência não podia explicar.

Ergueu a cabeça de olhos fechados e esfregou-os para ver se despertava, já não dormia em condições desde que ali chegou, estava cansado, insuportável, deprimido e nada o podia ajudar. Por um lado queria acreditar que aqueles acontecimentos foram mesmo reais mas por outro nada daquilo fazia sentido. Já há três dias que Juliana não lhe dizia nada, sempre que tentava entrar em contacto com ela, o telemóvel dava sinal de desligado, estaria ela zangada com alguma coisa? Joel também não se ralava muito, adorava Juliana e sabia que se ela desligasse o telemóvel é porque precisava de ficar sozinha e que não queria ser incomodada e Joel conhecia bem a teimosia dela.

Já uma vez Juliana organizou um jantar de dia dos namorados para o namorado da altura, Ricardo e este não apareceu, deixando-lhe no dia seguinte uma mensagem de voz a dizer que estava tudo acabado, que tinha conhecido outra pessoa.

Joel tentou acalma-la durante diversos dias mas devido ao feitio especial de Juliana, decidiu afastar-se um pouco pois esta não queria estar com ele nem com mais ninguém, preferindo o silêncio e paz da sua casa. Desde aí que Juliana não namorou mais ninguém, só pensava em matar Ricardo pelo que ele fez.

Joel despertou dos seus próprios pensamentos ao ouvir um enorme barulho vindo de um dos quartos. Olhou para a porta de entrada da sala, desconfiado e amedrontado. Tinha medo que alguém entrasse por ali adentro e o matasse. Ele estava imensamente assustado mas também estava decidido a acabar com aquela história toda, estava farto de estar ali tipo morto-vivo e de se sentir em baixo sem ter quaisquer razões para tal. Levantou-se da cadeira onde estava, atravessou o hall de entrada sorrateiramente, como se tivesse pezinhos feitos de lã e avançou praticamente encostado à parede, subindo as escadas, para a zona dos quartos, naquela imensa escuridão, apenas uma leve luz vinha da sala de onde acabara de sair, ao fundo das escadas.

Abriu a porta do seu quarto de rompante e nada, não havia nada ali dentro, estava apenas escuro e silencioso, até o ar parecia mais leve do que nas outras noites e a luz do luar já penetrava um pouco pela janela do seu quarto, fazendo Joel sentir-se menos alarmado por não ter que lidar com mais pombos mortos.

Saiu do seu quarto ainda algo desconfiado mas mais aliviado e dirigiu-se ao quarto onde dormira Juliana na primeira noite que ali passara. Abriu também a porta de rompante como se quisesse assustar alguém que ali estivesse escondido e nada, não havia nada ali dentro também.

“Eu devo estar mesmo maluco de todo” – pensou Joel levando as duas mãos até à nuca da sua cabeça e fechando os olhos enquanto respirava fundo.

Virou costas ao quarto, fechando-lhe a porta e sentiu um extremo odor a podre, como se algum animal morto ali estivesse há muitos dias. Levou a mão direita às narinas mas mesmo assim sentia o odor fétido que infestava toda aquela divisão. Tentou ver de onde vinha o cheiro desagradável que até os próprios mortos acordava e reparou que a porta do quarto, que estava sempre trancada, estava naquele momento semi-aberta.

Joel retirou a mão das narinas, esquecendo-se daquele odor insuportável e dirigiu-se à porta. O que quer que estivesse a fazer com que aquele cheiro se propagasse, estava ali dentro, não tinha quaisquer dúvidas.

Durante vários meses aquela porta esteve trancada à chave, como é que naquele momento a porta se abrira? Joel tentou por várias vezes abri-la nos dias anteriores mas infelizmente esta não cedia e Joel também não queria causar estragos na casa.

Avançou vagarosamente, com suores frios a inundar-lhe a testa, empurrou a porta para trás, fazendo-a chiar agudamente.

De lá de dentro vinha um cheiro nauseabundo, como se aquele quarto guardasse todo o tipo de lixo que há no mundo e que nunca fora limpo. A luz estava acesa e iluminava a divisão toda em tons de rosa pálido. Mais para dentro ouvia-se um leitor de CD’s a tocar uma qualquer balada rock romântica clássica.

Joel entrou até ao fundo e viu uma cama por fazer, diversas roupas de rapaz espalhadas pelo chão misturadas com garrafas de álcool e maços de tabaco vazios.

Ao lado da cama estava uma cómoda pequena com um incenso a ser queimado mas aquele cheiro insuportável era impossível de se eliminar mas Joel continuava sem entender de onde vinha aquele cheiro até que ouviu água a correr de um chuveiro, fazendo-o olhar para trás, para a porta da casa de banho que estava á entrada mas que pertencia àquele quarto. A porta também se encontrava semi-aberta e de lá vinha o tal som da água, para além de vapores da água quente. Joel voltou para trás e abriu a porta da casa de banho, esta encontrava-se também bastante iluminada.

Em frente a Joel estava um banheiro com cortinas e de dentro dele vinham os tais vapores quentes. Joel avançou cautelosamente para as cortinas e abriu-as de rompante, descobrindo um cenário que horrível, algo inimaginável, algo que fez Joel entrar em desespero, não conseguindo gritar de tal choque que aquele momento lhe proporcionou.

Em frente a ele, deitado no banheiro cheio de água suja estava a sua própria pessoa, de olhos abertos como se para ele olhasse. O seu clone estava vestido como ele estava naquele momento e tinha um dos pulsos cortados que jorrava enormes quantidades de sangue no chão.

Joel recuou para trás, de costas, sem emitir qualquer som, estava demasiado chocado e incrédulo, com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. Começou a soluçar sem parar e caiu de costas, estava demasiado frágil e não sentia força nas pernas. O seu clone não parou de o olhar e levantou-se do banheiro decidido, começando a sorrir.

Joel tentou arrastar-se para trás para lhe fugir, mas o choque tinha-lhe roubado todas as forças.

- Por favor, não, isto não é real, tu não és eu, não podes! Eu estou vivo! Isto é um sonho! – conseguiu finalmente Joel dizer, continuando a arrastar-se com a força das mãos.

A figura não parava de sorrir para ele, avançava devagar com os braços estendidos para Joel, como se quisesse abraça-lo.

- Nãooooo… - gritou Joel horrorizado e escondendo a cara com o braço esquerdo.

A porta desse quarto fechou-se violentamente e o silêncio instalou-se na divisão.

Na sala, o mp3 recomeçou a tocar na música Suicide Trees de Otep.

 

DEPOIS DE TUDO

Um telefone toca e uma mão rugosa e branca, com umas belas unhas vermelhas, de uma senhora pega no auscultador e atende.

- Sim? – atendeu a voz vinda de uns lábios encarnados muito carnudos e enrugados.

- Ainda não tem notícias do Joel? – perguntou a voz do outro lado, era a voz de Juliana, a voz dela tremia de nervosismo e de tristeza, parecia ter estado a chorar antes de se decidir a fazer aquela chamada.

- Minha querida, ainda não sei de nada e já te prometi que te diria algo mal soubesse de alguma coisa. – responderam-lhe os lábios carnudos, agora esboçando um pequeno sorriso familiar.

- Oh está bem, estou imensamente preocupada, ele ainda não apareceu ao trabalho e a senhora é senhoria dele, ele pode muito bem estar em casa e ninguém saber, a senhora podia ir lá verificar…

- EU já lá fui e não o vi por lá e devo-te dizer, ele saiu daquela casa e levou tudo com ele, deixando-a devidamente arrumada. É uma pena ele ter saído sem avisar ninguém, um rapazinho tão simpático e atencioso…

- Oh ok, mas prometa-me que mal saiba de alguma coisa que me avisa…

- Claro que sim, minha querida. Tenta descansar, noto que estás muito nervosa e em baixo mas vais ver que em breve te encontras com ele… tu e o Ricardo… - respondeu a voz, cada vez mais abafada.

- Como? Não percebi… o Ricardo? Que quer dizer com isso? – Juliana ficou muito atrapalhada com o que a senhora dissera mas não obteve mais resposta pois a chamada acabara de ser deitada abaixo.

Juliana tentou mais uma vez fazer ligação mas o número já não se encontrava atribuído.

Do outro lado da linha estava a senhora que Joel vira no seu local de trabalho no dia em que ouviu uma voz serena mas fantasmagórica, era a sua senhoria, essa senhora encontrava-se a sorrir para um espelho enquanto chegava mais uma camada de batom nos seus lábios.

- Ela está muitíssimo preocupada mas em breve junta-se a nós… - atirou enquanto voltava costas para o espelho.

- Você é mesmo uma ceifeira… - respondeu Joel sorrindo para ela.

- Não sejas mal-educado, meu querido, é apenas o meu trabalho… recolher a juventude enquanto ela ainda existe… - respondeu-lhe Liliana, mais conhecida por D. Lia, passando a sua mão rugosa pela face de Joel, olhando-o nos olhos.


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