Natal Espacial

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Status: Finished  |  Genre: Science Fiction  |  House: Booksie Classic
Uma vila é visitada por "seres natalícios".

Submitted: December 08, 2013

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Submitted: December 08, 2013

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Lá para o longe de Portugal, entre vales e montes, arvoredos e arbustos, aguentava-se uma pequena aldeia do interior composta por duas dezenas de casa de pedra, antiquadas e maltratadas que há muito estavam abandonadas devido aos constantes mudanças por parte da sua população para a grande cidade que ficava a mais de duas horas de viagem daquele local. Nada tinha mais a oferecer, não existia centro de saúde, o autocarro nunca passaria ali para transportar quem adoecesse ou quem precisasse de outros cuidados médicos, não havia nenhum ponto de partilha de cultura (fosse biblioteca, fosse auditório), a escola mais próxima ficava a cerca de quinze quilómetros, o que não facilitava em nada as viagens matinais dos seus jovens e crianças que apenas poderiam usufruir das suas bicicletas já antigas (e quando as tinham) que os pais tentavam preservar a todo o custo. Quem ali estava apenas subsistia graças à oferta dos campos e animais.

Apenas duas famílias ainda aguentavam ali estar, sozinhas, no meio do nada, esquecidas pelos “estrangeiros” - como elas chamavam a quem ali passasse. Essas duas famílias podiam estar unidas e combater aquele deserto de pedras e arvoredo mas não podiam estar mais afastadas pois eram inimigas desde que se lembravam. Cada uma tinha na sua posse um terreno arável e alguns animais pertencente ao gado que ainda conseguiam manter vivo e não queriam manter qualquer tipo de contacto uma com a outra, tentando abster-se de ajuda mútua.

A família Gonçalves era constituida por um casal e a mãe da senhora, esse casal tinha um filho com dez anos que queria desistir de estudar para conseguir ajudar os seus pais no campo, coisa que estes recusavam pois olhavam para o futuro do miúdo, queriam que este fosse um homem feito mas sobretudo feliz, com um emprego estável e se tivesse que abandonar a aldeia, que assim fosse.

A família Guterres era um casal sovina, orgulhoso mas conseguiam derreter o seu coração (ou a falta dele) quando as coisas não corriam bem para os outros, excepto se, os outros fossem a família Gonçalves, que bem que podiam morrer num incêndio, que a eles não lhes faziam falta alguma. Este casal tinha três filhas, uma delas já madura o suficiente para as lidas da casa e que nunca recusava qualquer trabalho doméstico. As outras duas eram ainda miúdas, crianças infantis e que se davam muito bem com o filho do outro casal, mantendo uma relação de amizade com ele quando estes se encontravam na escola, mantendo as aparências de inimigos naquela aldeia.

A avó dos Gonçalves estava tremendamente doente naquele dia vinte e quatro de dezembro e encontrava-se na cama, divagando para consigo mesma enquanto que o miúdo lhe afagava as mãos, solidário com o seu estado de saúde, temendo pela perda da sua querida avó que tudo significava para ele. Ela sabia que pouco faltava para ir ao encontro das portas da morte, ao seu destino cruel que finalmente não tardava a vir e que voltaria a ver o seu esposo que falecera muitos anos antes quando um tractor agrícola passou por cima do corpo dele, relando todo o seu corpo que se misturara com as ervas secas que cortava naquele dia.

 

ANOS ANTES

Estava um dia cinzento de Agosto, as nuvens ameaçavam com uma gigatesca chuvada a qualquer momento, sobrevoando toda a região de Montes Velhos. Joaquim Gonçalves fora alertado pela sua esposa Emília para não sair de casa pois uma tempestade estava a caminho, que mais valeria tratar dos campos no dia a seguir, se assim fosse possível mas este não lhe dera ouvidos e com a sua imensa teimosia decidiu ligar o tractor, colocar-se ao volante e começar os trabalhos diários no campo. Mas azar o deste quando ao subir para o seu lugar, um dos seus pés escorregou, fazendo-o cair para debaixo do tractor, sugando todo o seu corpo para debaixo do pneu pesado e sujo com estrume. O pobre homem teimoso morreu ali, assim sem mais nem menos, tentando gritar por ajuda com aquela sua voz rouca e engonhada que se misturava com uma espessa papa de sangue e vómito acizentado.

A sua mulher via o cenário de terror da janela da sua cozinha enquanto descascava as batatas que deveriam comer ao almoço, fazendo um pequeno corte num dedo ao ver aquele cenário grotesco embebecido com líquido vermelho que se jorrava por todo o lado, ficando esta boquiaberta com tal infortúnio.

Um corvo pousa na berma da mesma janela, em frente à mulher, olhando-a fixamente, fazendo-a distrair-se com tal episódio fatídico na familia e apercebendo-se do corte que sofrera.

 

ACTUALMENTE

– Sabes, meu querido... - começou a velha senhora, agarrando no braço do seu neto Luís, fazendo lhe carícias sobre aquela camisola de lã axadrezada. - Lá fora está um imenso temporal, não é coisa boa...

O rapaz olha para a janela daquele quarto escuro e gelado, decorado apenas com uma cama de casal, uma cómoda e uma cadeira de madeira escura, e verifica que realmente enormes aglomerados de nuvens cinzentas imensamente escuras ameaçavam irromper ali mesmo em relâmpagos ensurdecedores.

– Avó, é só uma chuva de nada, isto passa...

– Isso é o que toda a gente pensa, meu amor. Mas isto é mau presságio e sinto que irei viajar em breve... Verfica sempre se não existem corvos por perto, isso sim é fatal. Anúncio de morte, sinal que nos vêm roubar a alma.

– Isso não histórias, avó, a professora disse-nos isso, para não acreditarmos nessas coisas.

– Ai disse? Mas então digo-te eu, essas coisas são reais e quem não acredita nelas, acaba por sofrer as piores coisas e essa “estrangeira” um dia dará razão aos mais velhos que são os mais sábios.

– Oh avó, está a assustar-me!

A avó agarrou no pequeno rapaz e deitou-o ao lado dela, partilhando a mesma almofada naquele fim de tarde assombroso e deprimente onde já se viam algumas gotas cortantes e leves a formar-se na janela.

 

As nuvens avançavam cada vez mais à medida que os minutos mortos e lentos passavam, esvoaçando por todo o lado e fixando-se em torno daquelas duas casas que até elas mesmas se encontravam de costas uma para a outra.

A avó soltava lágrimas silenciosas que lhe fugiam pelo rosto enrugado e pálido, enquanto pensava no seu marido e no seu triste destino, por outro lado sentia-se aliviada por finalmente ir ao encontro dele. O pequeno rapaz passava a sua mão magra, sedosa e frágil pela face da avó, mirando-a a chorar enquanto engolia em seco mas tudo o que ele queria era que aquilo terminasse e que a avó desse mais um sorriso carinhoso tal como lhe dava todos os dias, mesmo quando ele fazia coisas que não devia como daquela vez em que se encontrou com as filhas do casal Guterres às escondidas para jogarem com um pião de madeira, tendo a avó aparecido de surpresa, mas sempre a sorrir. Não os condenava, afinal eram apenas crianças inocentes que partilhavam uma enorme amizade e amor entre elas, sem segundas intenções e cobardias, ao contrário das suas famílias.

A avó parou de respirar às vinte e três horas e cinquenta e nove segundos do dia vinte e quatro, dando o seu último suspiro de olhos fechados e com um braço caído ao lado da cama enquanto que o rapaz permaneceu ali imóvel, apercebendo-se do que aconteceu, mas não queria que aquele abraço seu acabasse tão rapidamente, amava a sua avó mais do que tudo na vida.

 

MEIA-NOITE

O pesado relógio de madeira pregado na parede batia as doze badaladas do dia vinte e cinco de dezembro, fazendo com que o rapaz se estremecesse.

A vibração do relógio fazia com que os ossos de toda a gente daquela casa ficassem gelados.

Os seus pais estavam na sala, olhando para o chão enquanto que a lareira crepitava violentamente, explodindo em pequenos estalidos. A sua mãe limpava o seu nariz e olhos aguados com lenço de pano já muito amarrotado e usado, pensando naquele triste Natal, Natal sem direito a jantar devido às amarguras da doença da avó. O pai fumava um cigarro e batia suavemente o seu pé direito no chão, um pouco impaciente, enquanto afagava o seu pequeno bigode escuro com os seus dedos grossos.

Um estrondo que se assemlhava a uma explosão fora ouvido lá fora, fazendo o casal sobressaltar-se sobre si mesmos, pulando das suas cadeiras, dirigindo o seu olhar para a janela da pequena sala escura e quente.

Uma rajada de luz capaz de cegar uma cidade inteira cercou as duas casas, não se conseguia vislumbrar nada a partir de alguns centímetros para a frente.

 

OS GUTERRES

A família Guterres empurrava violentamente as suas três filhas para dentro de um armário no vão das escadas do primeiro piso, deixando-as completamente no escuro, muito encolhidas entre si enquanto soluçavam o mais silenciosamente possível, estando a mais velha das três, com apenas dezassete anos, a tentar acalma-las encostando-as contra o seu tronco, olhando para o tecto do armário sem conseguir distinguir nenhum som ou nenhuma imagem.

Bateram com a porta, trancando-a com uma chave de ouro, escondendo-a no vestido negro da senhora, num bolso camuflado e dirigiram-se para a frente da porta da entrada, de mãos dadas e num pânico silencioso, olhando entre si. Do lado de fora de casa via-se uma enorme quantidade de luz a cercar a casa.

– É agora, não é? - perguntou a Sra. Guterres, entre soluços, fazendo um esforço para não gritar.

– Um dia tinha que calhar a nós... - respondeu-lhe o marido, arregalando aqueles olhos minúsculos e brilhantes.

 

Imensos pós brilhantes com milhões de estrelas cintilantes minúsculas formavam imensos tentáculos azulados e transparentes que se infiltravam dentro daquela casa pelas frestas da porta de entrada, pela lareira quente e ainda em chamas e pelas janelas, indo ao encontro do armário onde estavam as três miúdas assustadas.

A porta do armário escancarou-se para trás com um enorme estrondo, desprendendo-se um pouco, indo ao encontro da parede, fazendo-a estremecer enquanto as três raparigas gritavam a plenos pulmões, tentando agarrar-se o máximo possível umas às outras, apenas a mais velha olhava para um tentáculo enorme à sua frente, encostando-ser forçosamente contra as prateleiras que se encontravam atrás de si, sentindo as suas costelas a gemerem de dor.

 

OS GONÇALVES

Luís via inúmeros tentáculos azuis a entrarem pela janela do quarto onde jazia ao lado da avó, tentou tocar na ponta de um deles e um clarão de luz azulada cercou-o, fazendo-o desaparecer daquele quarto, abandonando o cadáver da sua avó que estava mais gelado que uma bola de neve.

Seis corvos pousaram na berma da janela, fixando o cadáver, não saindo daquele sítio., mal aquela luz terminou, voltando a estar uma noite silenciosa e estrelada

O casal mantinha-se no mesmo sítio, sentindo uma espécie de calma assustadora, sabiam o que se havia passado naquele momento luminoso, reflectindo sobre tudo aquilo mas sabendo que tudo acabara, finalmente, depois de todos aqueles anos.

 

A aldeia sofria desde sempre raptos inexplicáveis, raptos que apenas tinham como vítimas algumas crianças e que apenas se davam uma vez por ano, na altura do Natal.

Aqueles jovens que ali estavam para dar continuidade à existência da vila foram os últimos a ali ficar e a serem roubados às suas famílias. No próximo ano já não haverá mais nada, apenas uma tremenda solidão e vazio nos corações das almas que por ali decidiram ficar revoltadas umas com as outras, culpando entre si a origem de tal fenómeno que ninguém, falando dos “estrangeiros”, acreditava ser real.


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